X

Por: Silvana Bombicino Damian

Está na mídia. O cartunista Laerte virou mulher. Profissional bem sucedido, por volta de seus sessenta anos de idade, filhos adultos e... virou mulher. Ver e ouvi-lo (assisti ao programa Roda Viva e outros) é no mínimo curioso. E intrigante.

Rosto extremamente masculino, cabelos extremamente masculinos, grisalhos e compridos, vestido curto, sapato de salto alto e, claro, batom vermelho. Estranho mas bem simpático (simpática?). Não sou psicanalista e muito menos preconceituosa. Pelo menos tento não ser. Mas os pensamentos surgem aos borbotões atropelando qualquer tentativa ao contrário. Primeiro me veio à lembrança Kafka e seu A Metamorfose: “Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se metamorfoseado num inseto monstruoso”. Depois me senti um bocadito orgulhosa por saber que aquele homem, profissional e intelectual de sucesso, resolveu trocar seu status quo masculino e se tornar uma mulher. Depois... bem,depois eu me indignei. Talvez não seja bem esta palavra, mas...

Não, Laerte, torço sim por você, mas infelizmente nem o batom vermelho nem toda parafernália do universo feminino podem transmutar um homem em uma mulher.

Falta o X! O X que só as mulheres possuem e não falo aqui em cromossomos, acredite. Esse X é bem mais complexo e vem sendo transmitido de geração em geração de mulheres. É o X da luta por dignidade, X da luta por igualdade e respeito, X da negação e rejeição. Falta o X da indignação histórica, Laerte. O X que nós mulheres carregamos ao longo da jornada humana na Terra. Para o bem e para o mal. O X da incógnita, do mistério, X da intensidade e complexidade, do amor incomensurável e da falta dele também, da coragem subestimada e muitas vezes incompreendida, enfim do X que nos faz ser o que somos. Para o bem e para o mal.

Falta o X.

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