Quais os defeitos dos adultos?

Por: Everton de Paula

No início do ano letivo de 1980, principiei a dar aulas na antiga sexta série do primeiro grau na escola Alto Padrão. Pleno de energia, vigor, criatividade e gosto pela docência a crianças, tinha pela frente uma classe de alunos com 13 anos de idade, em média. Para lhes pedir que fizessem uma redação sobre determinado tema, eu os levava a lugares que tinham referência ao assunto proposto. Assim, eu e aquelas crianças visitamos o museu de Franca, a pracinha do cemitério, a antiga estação de trem da Mogiana; inesquecível o momento de quando subimos as escadarias do campanário da catedral para vermos de perto o carrilhão. Na descida, no mezanino onde ficava o órgão e onde grupos de canto coral entoavam canções religiosas, ajeitei as crianças sentadas ao piso e toquei duas ou três músicas no velho órgão de fole. Momento mágico aquele!

Uma das redações pedidas tinha por título uma pergunta: “Quais os defeitos dos adultos?” As melhores respostas seriam corrigidas, adequadas e expostas nos corredores da escola.

As redações foram surpreendentes e eu as guardo até hoje. Veja, caro leitor, como eles se saíram com as respostas:

“1. Os adultos prometem coisas, depois esquecem, ou dizem que não foi bem uma promessa mas um ‘vamos ver’.

2. Os adultos não fazem o que mandam as crianças fazer como guardar suas coisas, andar limpos, ou dizer sempre a verdade.

3. Os adultos não deixam os filhos se vestirem como querem, mas nunca indagam a opinião da criança sobre como deveriam vestir-se. Quando saem para uma festa, eles vestem o que querem mesmo que seja feio e não agasalhe bem.

4. Os adultos nunca ouvem as crianças; decidem sempre com antecedência o que elas vão responder.

5. Os adultos erram, mas não confessam o erro; fingem sempre que não foram erros, ou que foram culpa de outra pessoa.

6. Os adultos interrompem constantemente as crianças e não se preocupam com isto; se uma criança interrompe um adulto, leva um pito ou coisa pior.

7. Os adultos nunca compreendem o quanto as crianças desejam certas coisas, uma determinada cor, forma ou tamanho. Se é uma coisa de que eles não gostam, mesmo que a criança a tenha comprado com o seu dinheiro de mesada, dizem sempre: ‘Não posso compreender para que é que você quer esta coisa’.

8. Os adultos às vezes castigam injustamente as crianças. Não é direito que, quando se faz uma coisinha à-toa errada, os adultos nos proíbam alguma coisa que tem importância enorme para nós. Outras vezes faz-se uma coisa mesmo malfeita, eles dizem que vão castigar a gente e depois não castigam. Nunca se sabe, e devia-se saber.

9. Os adultos falam muito sobre dinheiro, contas e despesas, e isso nos mete medo. Dizem que o dinheiro não é muito importante, mas falam tanto nele que dá a impressão de ser a coisa mais importante do mundo.

10. Os adultos falam muito da vida alheia, mas se as crianças fazem a mesma coisa e dizem as mesmas palavras sobre as mesmas pessoas, eles acham que é falta de respeito.

11. Os adultos se metem nos segredos das crianças. Acham sempre que se trata de alguma coisa ruim. Nunca imaginam que possa ser uma boa surpresa.

12. Os adultos estão sempre falando sobre o que faziam e o que sabiam quando tinham treze anos de idade e geralmente parece que não podia ter sido da maneira que eles dizem. Mas os adultos nunca procuram imaginar o que é ter treze anos agora.”

São passados 32 anos. Suas respostas de então parecem muito atuais. Estas crianças estão por aí, adultas, pais, mães, vencedores na vida, outras nem tanto. Mas tentaram, tenho certeza. E um dos prazeres que sinto é quando correspondem comigo.

Se valeu a pena? Ô!

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