A minha morte

Por: Ronaldo Silva

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Ontem eu pensei na minha morte.
(Antes de tudo, acalmem-se, eu não sou um suicida e isso aqui não é uma carta-testamento ou coisa que o valha.)


É sério!

Estudei mil maneiras de escrever isso usando alguns eufemismos. Pensei até em não escrever, afinal eu já escrevi um poema sobre a morte - ‘Surpresa’ é o título - mas não teve jeito.

Porque foi mais que um pensamento, foi uma sensação tão real e viva (que paradoxo!), que eu não poderia deixar de registrar aqui.

Hoje eu pensei, senti e chorei a minha própria morte. E fiz isso sob algumas variadas perspectivas, o que julgo perfeitamente compreensível quando ainda se está vivo.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o ‘como’ eu morreria. Em instantes eu me vi debruçado sobre o teclado do meu laptop, vítima de um ataque cardíaco fulminante (claro que eu não vou querer sofrer antes da passagem!).

Assim eu fui encontrado: cabeça pousada sobre o laptop aberto. Na tela, logado em uma das minhas redes sociais, o início de um texto que eu jamais viria a concluir.

Depois do trauma indescritível de um familiar meu me encontrar cadavérico - cena pela qual eu passei bem rápido, obviamente - passei a fantasiar com muita lucidez como seria cada um dos demais familiares, amigos, ex-namoradas e conhecidos recebendo a notícia do meu desencarne. Eu pude sentir a reação de choque de cada um deles. Era muito real, assustadoramente real!

Nessa hora comecei a chorar compulsivamente. E o mais estranho é que eu não chorava as consequências da minha morte na minha vida - e isso não é um trocadilho! - mas chorava a consequência na vida de cada um deles (as). Foi então que eu quis interromper o pensamento, mas o teatro mental não fechava as cortinas e, em instantes, meu velório estava organizado.

Eu passeava tranquilamente entre as pessoas, completamente consciente de tudo o que se passava, mesmo assim sereno, olhava para meu caixão e ficava ouvindo os lamentos de cada um em particular. Embora nesse momento eu já não chorasse mais, como isso doeu! Sobretudo quando se tratava de minha mãe e de minha irmã.

A todo momento um homem calmo que me acompanhava dizia com sensível educação: ‘Agora chega, Ronaldo. Vamos embora.’

Embora eu não respondesse nada ao homem calmo, ele parecia ler meus pensamentos que diziam: ‘Não, ainda não! Quero ficar mais um pouco.’

Uma pessoa então aproximou-se do caixão e, alisando-me a barba com ternura, disse: ‘Pena eu não ter conseguido te dizer mais uma vez o quanto te amava! Você foi muito importante na minha vida.’

Continuei passeando entre os presentes. O salão estava lotado. Por todos os cantos, as expressões da perplexidade ante uma morte tão repentina e, de certo modo, prematura. Palavras amenas aqui e acolá, contidas manifestações de apreço. Mais na periferia do salão, especulações sobre a causa da morte, descrições as mais fantasiosas sobre como minha mãe me teria encontrado morto em meu quarto. Mais adiante, claro, algumas anedotas e conversas sobre corrupção no governo, a política de juros, o preço do café, a novela das nove etc. Afinal, velório é velório...

Numa cena derradeira, meu caixão descendo à sepultura em meio a lamentos incontáveis. Parentes meneando a cabeça inconformados. Uns pensando: ‘como pode ter ido tão cedo. Nem um filho ele deixou!’ Outros conjecturavam: ‘Lá se vai, sem ter pago nenhuma das suas dívidas. Acabou se safando!’

Antes que o cemitério se esvaziasse e eu começasse o processo de ser pouco a pouco esquecido pela grande maioria dos presentes, o sereno homem de branco mais uma vez instou a que fôssemos embora e eu anui, não menos calmamente.

Assim foi o filme que se passou na minha mente na tarde de ontem. Pena eu não ter conseguido assistir ao desenrolar de minha penetração no mundo espiritual.

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