Ventos uivantes e outros assuntos

Por: Sônia Machiavelli

Durante sete anos estudei no IEETC, cuja grande biblioteca, dirigida então por Lourdinha Alarcon, frequentava . Por muito tempo guardei as fichas que davam acesso aos livros que alimentavam nossa imaginação. Preocupada com a curiosidade e a imaturidade das adolescentes, Lourdinha ficava vigilante. A Carne, de Júlio Ribeiro? Nem pensar! O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Também não. Muitos outros títulos nos estavam interditados. Um deles, O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë.

Acontece que este eu queria desesperadamente ler. Talvez porque o proibido é mais gostoso. Ou porque achava o título muito sugestivo. Ou ainda pelos comentários de algumas colegas. Virei uma sarna em cima da Lourdinha, prima de uma amiga. O parentesco em nada amenizava a decisão da bibliotecária. Mas eu não desistia. Desejava mergulhar naquelas páginas e entrar em contato com o vingativo Heathcliff, o ínclito Linton, a indecisa Catherine. Mas não havia jeito, Lourdinha era irredutível. Antes dos 15, melhor M. Delly ou A.J. Cronin, Machado de Assis (o da primeira fase) e Monteiro Lobato (o do conto Negrinha), o Erico Veríssimo de Olhai os lírios do campo... Eram ótimos, mesmo, com todos fiz viagens interessantes. Mas O morro dos ventos uivantes, ou no título original Wutherings Heights, era outra coisa, eu intuía; me parecia diferente tipo de literatura, desafiava-me desde a estante de madeira escura e encerada. Um dia burlei a vigilância de Lourdinha. Não conto como, mas levei o livro para casa. Foi um deslumbramento: li de enfiada, impactada por aquelas paixões desmedidas e por outros sentimentos intensos e perturbadores. Empreendi incursões a regiões de mim que me pareciam tão cediças quanto as charnecas sombrias, tão inóspitas como as montanhas assombrosas , tão cortantes como os uivos dos ventos descritos de forma impressionista pela narradora. A história se fixou indelével dentro de mim.

Anos depois a cantora inglesa Kate Bush compôs a canção homônima, Wutherings Heights, e falou da importância daquele livro na sua vida. Entendi direitinho o que ela queria dizer. E até hoje aquela é uma das músicas que resistem na minha particular trilha sonora. Depois, transcorrida outra década, tendo acesso à versão de Luis Buñuel para a tela, compreendi que aquele romance de paixões desenfreadas era um clássico que desafiava também os artistas da imagem. Por fim, ao ler recentemente a análise de um crítico de formação freudiana sobre a narrativa e os personagens de Emily Brontë, eu me rendi mais uma vez à grandeza e amplitude desta escritora magnífica, traduzida para mais de trinta línguas. Heathclif seria o id; Edgar, o superego; Catherine, o ego. O primeiro exteriorizaria impulsos primitivos; o segundo representaria as regras da moral vigente; a terceira se relacionaria com os dois e testaria o id na realidade que tem no pântano, nos montes e nos vendavais metáforas do nosso mundo psíquico.

Voltando à adolescência, fechada a última página, de um gótico avassalador, quis ler outro livro da escritora e fiquei sabendo que ela só tinha escrito aquela obra. Na busca por dados a seu respeito, descobri que sua vida, bem como a de suas irmãs, poderia render matéria para um romance tão prodigioso quanto aquele que a havia elevado ao panteão dos grandes nas letras.

Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne(1820-1849) nasceram em Hartshead e estrearam na literatura em 1846, com Poems, coletânea de poemas assinados por pseudônimos masculinos- Currer, Elli and Acton Bell. É que se tornavam malvistas mulheres que ousavam publicar a sua intimidade, mesmo que de forma lírica, naquela sociedade conservadora da era vitoriana. As moças tinham um irmão, pintor viciado em drogas e cujas excentricidade e morbidez as marcariam. O pai, pastor anglicano, educara os filhos sob férrea disciplina e dentro de um ascetismo quase cruel. A mãe morrera quando eles eram pequenos e uma tia fora convocada a cuidar da família no isolado presbitério de Yorkshire (norte da Inglaterra), incrustado numa paisagem desolada e selvagem, fundo fantástico dos romances de Emily e de Charlote e da poesia de Anne.

No mesmo ano em que O morro dos ventos uivantes vinha a público, Charlote lançava seu Jane Eyre, título que me inspirou a começar este texto. É que transposto para a tela já várias vezes, a exemplo do que aconteceu a Wutterings Heights, Jane Eyre ganhou nova adaptação, agora para o formato DVD, disponível a partir da próxima semana nas locadoras, segundo me informa uma assesoria de imprensa. Mia Wasikowska (de Alice no País das Maravilhas) faz o papel da jovem governanta que para ganhar o seu sustento vai trabalhar numa mansão em cujos porões ocorrem fatos aterradores .

Tanto O morro dos ventos uivantes como Jane Eyre são obras que se tornaram clássicas. Reler estes livros e ver os filmes neles inspirados nos permite avaliar o poder criador de ficcionistas que venceram dificuldades quase intransponíveis para publicar o que suas mentes brilhantes produziram num curto espaço de tempo. As Brontë morreram jovens. E se mostraram feministas, na vida e na arte, bem antes que o conceito tivesse sido nomeado.

Foram admiráveis mulheres, extraordinárias escritoras. Deveriam ser mais lembradas de um março a outro.
 

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