Labilidades

Por: Eny Miranda

São mágicas, as tardes estivais.

O azul absoluto subitamente começa a se enfeitar de flocos alvíssimos, trazidos por úmida brisa, vinda não se sabe de onde. Logo o espaço é um cenário cambiante: mil personagens se criam, transformam-se e se perdem, continuamente, em metamorfose interminável. O dragão, dissipando a altivez, curva-se e ganha contornos de cão, ou de flor que se vai dissolvendo no cobalto profundo; a montanha vira cascata de espuma, ou encorpa e lança raios, ruge, para, pesada, pender e se precipitar em bátegas e bátegas de água; muralhas inteiras, esgarçando-se em mil véus, depois translúcidos fiapos de algodão, perdem-se na linha do infinito. Ao sol do ocaso, os brancos flocos quedam-se em dourada reflexão, ou rutilam sangue vivo, ou - nem ouro, nem sangue - enegrecem, tornando-se coágulos.

Essa instabilidade, essa sensível porosidade lembra-me a tessitura humana. Somos tão frágeis e belos e mutáveis e mágicos como as tardes estivais; castelos que se erguem e se diluem, num abrir e fechar de olhos. Passamos do azul ao negrume, no intervalo de um suspiro; exalamos brandura, lançamos chispas, vociferamos e nos liquefazemos, ou nos volatilizamos. Em uma tarde, somos dragões e flores e montanhas e cascatas de espuma; muralhas e fiapos de algodão. O ouro do ocaso leva-nos à reflexão, revela-nos a carne-viva, ou nos resseca e coagula. Boiamos no espaço, instáveis, até sucumbirmos ao próprio peso ou nos rendermos à leveza e nos difundirmos no éter.

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