Quaresma

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Esta palavra, que hoje pouco significa para os mais jovens, já amedrontou muitas pessoas e principalmente crianças. Lembro-me de que quase tudo era proibido na quaresma: cantar, dançar, comer carne, usar roupas coloridas. Diziam que as galinhas não botavam e ninguém queria se casar na quaresma. Não se podia ouvir música em alto volume, no rádio, ainda mais se fosse de carnaval, considerado pecado e coisa do demônio. Ainda não tinha sido transformado em espetáculo com fortes interesses financeiros. Pois é logo depois do fim do carnaval que começa a quaresma, tempo de reflexão e penitência em preparação para a Páscoa, festa cristã que comemora a ressurreição de Jesus. Era, também, tempo de assombrações e muitas histórias foram contadas. Na zona rural, os cavaleiros que se aventuravam a cavalgar ‘a noite relatavam coisas estranhas que os animais faziam ,parecendo que estavam vendo seres do outro mundo, empinando, refugando e se recusando a ir adiante. Barulhos como roncados e gemidos pareciam reais e deixavam os ois, cavalo e cavaleiro com os pelos arrepiados.

Nas cidades, as crianças viviam assustadas temendo a aparição de almas errantes. Certa vez um grupo delas que brincava, à noite, nas portas das casas, falava sobre uma moça vestida de branco, segurando uma vela acesa, que percorria as ruas ao escurecer, na época da quaresma. Precedida por uma forte rajada de vento gelado que surgia de repente e, que mesmo assim não apagava a vela, ela aparecia vagando pelas ruas. Muitos ouviam as janelas e portas rangendo, batendo com o vento e quando iam fechá-las, davam de cara com o vulto da moça fantasma, branca como cera, de fisionomia indefinida. Essa história eles ouviam de familiares mais velhos e todos davam suas opiniões, acreditando ou não, mas no fundo tinham muito medo. Entre uma brincadeira e outra os dias de quaresma foram passando e ,uma noite ,estando todos reunidos, mesmo não estando ventando, alguém gritou apontando para o nada:

— Olhem lá, a moça de branco!

Foi o bastante para que, correndo desesperadamente, eles buscassem suas casas e não foi só um que se estatelou no chão, machucando e chegando todo arranhado. Será que as crianças de hoje ainda têm medo da quaresma?
 

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