Qual o filme da sua vida?

Por: Maria Luiza Salomão

Em um dos programas da GNews, “Em Pauta”, os jornalistas trocam figurinhas sobre a escolha do “filme da sua vida”. Alguém elege Cinema Paradiso, o filme que abre a programação do evento Cinema & Psicanálise 2012, em Franca. A jornalista disse tê-lo visto apenas uma vez e não quis revê-lo, para não apagar o que a marcou, por não acreditar ser possível repetir aquela experiência.

A Memória é um tecido psíquico complexo. Não diferenciamos, com precisão, Fantasia e Realidade, e, quando sentimos intensamente nossas experiências, criamos “fatos psíquicos”, que costumamos chamar de memórias. (assim é, se assim lhe parece, diz Pirandello).

Mário Quintana diz “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. Sofrer a experiência, em fantasia ou na realidade, ou mesmo na ficção artística, é a condição fundamental para se adensar a qualidade do “fato psíquico”, moldando nossas memórias. O que somos, enquanto individualidade, e também enquanto coletividade, devemos ao como guardamos as Memórias.

No filme Cinema Paradiso (1988), o cinema é um espaço de memórias de experiências e é o personagem principal. É no espaço deste Cinema que acontece a Vida de uma pequena comunidade italiana, no período pós II Grande Guerra, antes do advento da TV. Espaço que será derrubado (marco do capitalismo voraz, vemos isso todos os dias) para se tornar um estacionamento. A comunidade acompanha, silente, o desabamento do prédio, tristonhamente...na derrubada dos tijolos derruba-se também o registro arquitetônico, histórico, de vivências afetivas, das memórias coletivas da villa italiana. A memória coletiva perde o enquadre concreto comum, o Cinema Paradiso. Cada pessoa guardará o que pode, como pode e merece ter, na sua memória pessoal, individual.

No filme, o personagem, o projecionista Alfredo (Philip Noiret) cumpre função paterna importante para com Totó (Salvatore Cascio, criança). Mas Alfredo também cumpre uma função social nesta comunidade, acompanhando as alegrias e sofrimentos de todos, projetados nos filmes. Alfredo incentiva Totó a não imitá-lo, a ir embora e a não mais voltar ao lugarejo. Totó vai e volta adulto, cineasta famoso, graças aos ventos da sua paixão pelo Cinema. O filme é tecido de pequenos gestos. Como os fragmentos de um filme antes de montado pelo diretor.

Em meio ao caos cotidiano, esfumaçamos o que somos, velozmente. Liquidificamos as experiências vividas, não ouvimos o lento escoar silente, da nossa vida. Só quando algo soa como uma explosão, implosão, perda, como ruptura, é que vemos/ouvimos/sentimos o que estava decantado em um lugar qualquer dentro da gente. Sentimento imenso e intenso, este.

A música-tema do filme acompanha o tom melancólico para este sentimento de resgate de memória, que religa as ruínas das experiências passadas, memórias salvas não se sabe como, de um tempo invisível que passa e não se vê, não se sente passar, e, no entanto, nos constitui.

Giuseppe Tornatore pretendia fazer um obituário para as salas tradicionais de cinema, em 1990, que estavam desaparecendo em todo o mundo, com a entrada da TV. Mas elas retornaram neste século XXI, multiplicaram-se. Na época da realização do filme ainda nem existiam as mídias sociais. Cinema Paradiso é uma metáfora bonita para a necessidade de termos um espaço delimitado para vivenciar e guardar as nossas experiências, transformá-las em memórias, encadeá-las em uma história pessoal, significativa.

Temos uma profunda necessidade de narrar nossas memórias, base do compartilhar experiências, mas precisamos de interlocutores de carne e osso. No anfiteatro do Centro Médico temos convivido, no terceiro sábado do mês, um grupo de sete psicanalistas e uma cada vez mais ampliada comunidade francana, refletindo, escolhendo e trocando figurinhas sobre os “filmes das nossas vidas”. Temos construído interlocução. Memoriais.

Esperamos todos, na estrada para Claraval. Comentários preciosos de Ana Regina Morandini Caldeira, psicanalista da SBPRP. Com ela compartilharemos um Cinema Paradiso, nosso, aqui mesmo, em Franca.


CINEASTA DA MEMÓRIA

Giuseppe Tornatore

O diretor de Cinema Paradiso é siciliano, 56 anos. Filmografia: Baaria, 2009, Malena, 2000, A Lenda do Pianista que vem do mar, 1998, Estamos todos bem, 1990. Ao final de Baaria o pintor siciliano, personagem no filme, Renato Guttuso, diz que o artista deve falar do que sabe, manter-se fiel às suas origens e raízes. Algo em que o diretor Tornatore acredita.

Diz Tornatore: ‘Nunca faço filmes pensando no que a audiência vai pensar, muito menos a norte-americana. Penso num escritor da Sicília que tem uma frase que me serve como um mantra: ‘Sabe a diferença entre um relógio parado e um que está sempre três ou quatro minutos atrasado? O atrasado nunca mostra a hora certa, enquanto o parado acerta duas vezes por dia’.Sou o relógio parado.’

Estabeleceu uma parceria com o amigo Ennio Morricone (gênio musical, com mais de 400 trilhas sonoras no currículo). Os dois produziram duas das mais belas trilhas da história do cinema, Cinema Paradiso e Malena. A música-tema de Cinema Paradiso é o retrato mais-que-perfeito da emoção evocada pela lembrança mágica, vivida na infância. Marcante, envolvente, sugestiva, a música-tema, homônima do filme, é um Personagem, perpassando tempos. Música, aliás, parece ser fundamental para este diretor. Em seus filmes as trilhas sonoras, em geral, são premiadas.

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