O primo Sabá

Por: Chiachiri Filho

O pai de Sabá, primo do meu avô, era um homem muito rico. Veio para o Brasil junto com os Jafet e chegou a possuir imóveis na Avenida Paulista. Porém, extravagante, especialmente no jogo de cartas, acabou perdendo sua fortuna e o seu filho Sabá teve de se virar como caixeiro viajante.

Vez por outra, Sabá passava por Franca e não deixava de visitar o meu pai. Numa dessas passagens, ainda moço, ele foi participar de um baile na AEC. Tirou uma linda moça para dançar e foi logo perguntando o seu nome. A donzela, envergonhada, respondeu:

—Não vou lhe dizer porque o meu nome é muito feio.

Sabá insistiu:

—Mas, o que é isso! Não se envergonhe. Só há um nome feio para uma mulher tão linda como você.

E a moça, preocupada:

—E qual é?

E Sabá, imprudentemente:

— Sebastiana.

A moça corou e pediu ao Sabá, que se desmanchava em desculpas, que a levasse de volta à mesa.

De outra feita, Sabá, ao descer na plataforma da Cia Mojiana, em Franca, o fez com o trem ainda em movimento. Caiu, bateu a clavícula, foi para o Hotel e chamou o meu pai. Para resolver o problema de Sabá, meu pai foi buscar o famoso Manha, especialista, embora sem diploma, no conserto de braços, pernas, clavículas quebradas e até pescoços destroncados. Ao ver aquele homem pequeno e humilde, Sabá, em árabe, perguntou ao meu pai:

Você tem certeza de que esse miúdo consegue colocar minha clavícula no lugar?

Meu pai foi afirmativo:

—Mas é claro, Sabá. Se não eu não o traria.

Manha mandou que Sabá se sentasse numa cadeira . Sabá, que se julgava forte como um touro, não quis obedecer. Manha insistiu e ele acabou cedendo. Manha pegou em seu braço e com um movimento rápido colocou a clavícula no lugar. Sabá , urrando, caiu de joelhos no chão.

Em uma outra visita a Franca, Sabá pediu ao meu pai que o levasse para cumprimentar “aquele santo homem chamado Manha”.

Certa feita, numa reunião de historiadores e genealogistas, encontrei me com uma senhora rica, empoada e soberba, moradora na mesma cidade de Sabá. Cai na bobagem de perguntar se ela conhecia Sabá Makari. Ela disse que sim porque ele fora casado com uma prima sua. Na seqüência da conversa, ela me perguntou:

— Por onde que ele anda?

E eu lhe disse:

— Sabá morreu:

E a mulher, sem esconder sua satisfação:

—Morreu?! Graças a Deus!

E assim, virei-lhe as costas e não conversei mais com a cruel senhora.

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