O mestre interior

Por: Jane Mahalem do Amaral

Há várias coisas que nos acontecem para as quais não temos explicação alguma. Falo desse entendimento racional, cartesiano, ao qual nos apegamos e ficamos brigando com a palavra absurdo. E quando nos cansamos de buscar a tal da lógica, acabamos concluindo com o senso comum: “Essa vida é mesmo um mistério”. Mas o que chamamos de mistério? Talvez seja aquilo que não é visível aos olhos, mas que poderia nos chegar através de uma outra capacidade de apreensão. Seria como um filme em 3D: para enxergarmos temos que colocar um óculos especial, temos que abrir novos olhares.

Tenho observado através das minhas leituras, ou em contato com pessoas que já desenvolveram essa percepção, que, antes de tudo, antes de olhar, é preciso abrir uma escuta. Somos habitados por uma presença que está na origem de todos os nossos desejos, de todos os nossos pensamentos e de todos os nossos atos. É o nosso Mestre Interior. No entanto, para ouvi-lo é necessário fazer uma ponte entre o material e o espiritual, o interior e o exterior, o eu menor e o Eu Maior. Acho que é essa uma das missões do ser humano que habita hoje esse planeta: integrar a matéria e o espírito e, deixemos bem claro, que espírito é tudo que está na essência de cada coisa, de cada ser. Ora somos anjos, ora somos demônios, em nós coexistem os dois lados e temos que respeitar tanto um como o outro. Podemos olhar as árvores e com elas aprender a reencontrar o bom-senso: ainda que profundamente enraizadas na matéria, sempre crescem em direção à luz. A seiva se desloca simultaneamente na direção das raízes e na direção dos galhos mais altos e assim ela consegue manter os dois extremos unidos: o céu e a terra. A seiva é esse espírito, esse Ser que nos habita e que nos quer vivos.

Mas para ouvir esse som silencioso da seiva que circula incessantemente através da nossa respiração, é preciso estar conectado com o Mestre Interior. Assim como, às vezes, ficamos satisfeitos quando a internet está ótima e nada atrapalha nosso trabalho, também ficamos muito irritados quando a conexão está ruim e nada conseguimos fazer. No que diz respeito a essa conexão com o Mestre Interior, creio eu, que passamos a maior parte da nossa vida dolorosamente desconectados. Isso porque não abrimos espaço para que ele se manifeste. E esse espaço é o silêncio. Jean-Yves Leloup explica: “Não estou falando do silêncio dos colégios internos, falo do silêncio que é uma espécie de luxo, a condição para a escuta”. Quando li esse texto, sobre o qual faço toda essa reflexão, fiquei pensando longamente que nós nunca, mas nunca mesmo, olhamos para o silêncio como um luxo: poucos têm e só alguns dele desfrutam. Nesse mundo barulhento, abrir essa escuta é mesmo um privilégio. Escutar em nós o que é agradável , mas também o que é desagradável.

O nosso encontro com o Mestre Interior pode acontecer de várias formas e em vários lugares: pode ser nos momentos de estudo, pode dar-se também na natureza enquanto caminhamos, ele pode se aproximar quando olhamos para uma obra arte, quando lemos ou escrevemos um poema, ou quando, imóveis, contemplamos um céu estrelado. O Mestre Interior estará sempre lá, mas para encontrá-lo é preciso estar aberto a essa receptividade, a essa escuta, a esse silêncio. Observar o barulho dos nossos pensamentos, o barulho de todos os julgamentos, simplesmente olhando para o que é, no momento presente, sem desejar mudar nada, sem expectativa nenhuma. Pode ser que quando chegarmos a esse silêncio poderemos até ouvir mais barulhos, mas nesse momento, também não é necessário brigar ou fugir deles e sim acolhê-los, pois o silêncio é um espaço infinito que tudo pode conter.

Encontrar o espaço que em nós está sempre em paz. Ser como o oceano: na superfície, suas ondas fazem barulho, mas as suas profundezas são sempre silenciosas. E assim, aquilo que nos assusta com o nome de absurdo, poderemos, sim, chamá-lo de mistério, mas compreendendo e ouvindo o que nos diz o nosso Mestre Interior.

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