Na haste de uma ameixa-amarela

Por: Eny Miranda

Voar! Privilégio dos pássaros?

Nos homens, sabidamente, sonho e calcanhar de aquiles, ponto vulnerável, ainda que apoiado na ausência anatômica, na falta: faltam-nos asas.

O ser humano está, há muito, empenhado em movimentar-se longe do chão. Desde os seres mitológicos, desde Ícaro e Dédalo, vários foram os artifícios por ele engendrados, visando à elevação da matéria e ao seu deslocamento, espaço afora: mil tipos de aparatos acoplados ao corpo, mil engenhos mecânicos, quase sempre inspirados no voo dos pássaros.

Contudo, temos outros pontos vulneráveis, outros tendões, zonas ou fatores-gatilho que, uma vez acionados, tanto nos podem levar à dor, até mesmo à morte, como ao prazer inefável, às viagens acima do chão, do peso dos músculos e dos ossos; no espaço, no tempo, no espaço-tempo: aventuras que dispensam asas.

Uma ameixa-amarela, entre outras, na embalagem aberta sobre a mesa. Meus olhos distraídos a encontram, mais especificamente, encontram a pequenina e aveludada haste que encima a fruta. No momento aparentemente sem importância, uma zona gatilho é acionada:

Lá estão a cerca, dividindo o quintal em duas partes, e a ameixeira, cujos galhos desconhecem tal divisão - a copa abarrotada de frutos amarelo-ouro, dispostos em veludosos cachos, enfeita igualmente os dois espaços. É início de outono, e o outono sempre me pareceu uma estação mágica, extremamente bela. Meu irmão lá está, chegando da escola, o clássico uniforme cáqui - calças compridas, dólmã, camisa bege e gravatinha preta - e o nosso cãozinho, a fazer-lhe festa. O céu é especialmente azul; o sol, o mesmo dourado sol das amoráveis tardes de outono. A terra batida reconhece os pés meninos, aceita e aninha raízes; os patos, as galinhas, o peru, as rolas chegadas à cata de migalhas compartilham esse chão; as mangueiras, as goiabeiras, o cajueiro a-guardam frutos e alegres escaladas. A brisa que vem do mar balança as folhas, desenhando sombras móveis e trazendo o aroma inconfundível da água-mãe, que se difunde entre perfumadas vidas. Lá estão papai e mamãe, a nos olharem, cuidadosos; a nos protegerem; a nos amarem.

Aqui está a minha infância - sem sofisticados engenhos mecânicos, sem aparatos acoplados ao corpo; sem tempo, sem chão, sem penas, sem asas, num átimo reencontrada - a minha infância pousada na haste de uma ameixa-amarela.

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