Já é março

Por: Everton de Paula

A inconstância humana. Talvez seja eu uma dessas pessoas perdidas no tempo e no espaço. É Natal, quero a Páscoa. Estou na praia, mas meus sentidos voltam-se para a montanha. Começou a festa, mas já anseio pelo seu fim. Iniciou-se a viagem: falta quanto para chegar ?

Que força é essa que me leva a repelir o momento, desejando ardentemente o seu fim? É meio-dia. Por que não seis da tarde, já? É o começo do curso, sonho com a prova final. Chegamos e quero voltar. Já é março, interiormente delicio-me com a brisa da quaresma, o perfume das flores miúdas no ar do outono, mas sonho com a chegada do inverno, da névoa, do frio, do recolhimento, das casas de portas fechadas, deixando entrever luzes amarelecidas pelas janelas sugerindo que as pessoas ali dentro estão ocupadas e felizes...

Estou aqui , mas quero lá. Escrevo pensando na música. Corro ao piano projetando o esboço do próximo quadro. Mal acabo de limpar os pincéis e corro ansioso ao trabalho.

Às vezes paro por um momento, busco aquietar meus pensamentos e configurar algo que tentei retardar, ou que ao menos gostaria que fosse retardado.

Fiz uma lista dessas coisas, e algumas delas são autênticas e calam fundo em minha alma. E essas coisas estão fortemente ligadas à inocência, à espontaneidade, ao doce fremir do espírito ante a fugacidade do momento inesquecível que vivi.

Congelei na tela de minha memória o momento em que, ainda jovens, nossos olhos meus e de minha esposa se cruzaram, se identificaram, silenciosamente se comprometendo a uma vida comum. Aquele momento eu não queria que terminasse. A infância de minhas filhas... Por que cresceram? Por que hoje sofrem com as desilusões, incertezas e a incompreensível labuta dos adultos? Mas aquieto-me vendo-as felizes e realizadas.

Repentinamente veio o carro e pegou-me na virada da esquina. Meu pequeno corpo caiu ao chão. Acordei nos braços de meu pai, acariciando-me, embalando-me, beijando-me a fronte... Não queria que aquele momento passasse.

Deitei-me ao chão do quintal. Acabara de chegar da escola. Tirei os sapatos e mirei as nuvens no céu. Da mangueira vizinha, um bem-te-vi cantou enquanto Mariazinha trazia o cipreste para dentro de casa. Fez-se o presépio à luz do arco-íris. E não era sonho, nem fantasia, nem literatura. Era tão somente um momento verdadeiro de minha infância que queria eterno.

Já é março, mas há de vir a Semana Santa, depois julho, os ipês de agosto, as primeiras chuvas em setembro, virá o Natal e será março outra vez.

Como conseguir a suprema sabedoria dos simples que sabem viver apenas o momento presente, deixando as perturbações temporais no mais recôndito porão do subconsciente?

A inconstância do presente. A insustentabilidade do momento presente. A única verdade é o passado. O presente não existe porque o agora já é o segundo seguinte, já se transformou no futuro. E o futuro, pobre tempo, só existe na imaginação. Não é fato.

Já é março e minha alma chora, perdida entre o que é , o que foi e o que será.

Preciso de uma âncora!

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