A memória efêmera

Por: Maria Heloiza Signorelli Nogueira

Passei, este ano, um Carnaval diferente: sem desfiles, sem sambas, sem agito. Um carnaval embalado apenas por cantos de passarinhos e longínquos latidos de cachorros. Que delicia!

Fazia já algum tempo que eu não visitava a minha terra, a minha Franca, e foi aí que desfrutei dessa tranquilidade, hospedada na chácara de sobrinhos.

Não vou dizer que matei as saudades, pois estas a gente não mata jamais; mas gostei tanto de rever tudo por aí...

Claro, não é mais a Franca da minha meninice e adolescência; é uma Franca muito mais dinâmica, muito mais movimentada. A cidade cresceu, os bairros se estenderam, as ruas se multiplicaram. Passeando de carro, sem destino definido, fui relembrando como era aquela praça, como ficou aquela rua, como a gente fazia para ir à casa de uma amiga que já partiu, como era aqui, como era ali, enfim, coisas de gente velha.

A cidade está bonita, muito bem cuidada, ruas bem limpas, bem asfaltadas isso chamou minha atenção, pois moro em São Paulo, onde tantas ruas mal pavimentadas provocam permanente trepidação nos carros.

Revi pessoas, senti falta de outras, voltei mentalmente no tempo, mas gostei do presente que vi desfilando ante os meus olhos. Meu pai tinha seu consultório ao lado da Matriz. Hoje, o uso do local é bem mais alegre, pois abriga uma perfumaria.

Fui revendo em minha memória as casas que ali nos circundavam e hoje desapareceram em quase toda a sua totalidade. Fui, em minhas lembranças, rodeando a praça: será que alguém se lembra do Bar Antártica, na esquina da Saldanha Marinho? Do fotógrafo Edward, onde iam os noivos da roça recém-casados na Matriz? Da farmácia Santana, do sobradão verde do Borizio Steinberg, da casa Higino Caleiro, da Casa Schirato, do sobradão dos Pucci, da lojinha do Zé dos Retalhos, do empório dos Silveira.... Puxa, isso foi há tanto tempo... Que saudade!

Mas saudade dolorida mesmo eu senti quando passei pela Rua Alcindo Conrado e vi o hospital ali “meio recentemente” reinaugurado, muito mais moderno, provavelmente muito mais eficiente, mais atualizado. Lembrei-me tanto de quando sua construção começou, em terreno doado pelo Dr. Antonio Petraglia e representando a materialização do sonho do meu pai, que o idealizou e tanto trabalhou para concretizá-lo.

Na gestão do então prefeito Dr. Helio Palermo, algum tempo após o falecimento do meu pai, nossa família foi convidada para a inauguração, e para o descerramento de um quadro pintado pelo artista Chafic reproduzindo um retrato de meu pai, que havia idealizado o hospital. Ele lamentavelmente não chegou a ver sua obra terminada, mas o seu sonho se realizou. Hoje, infelizmente, nada mais lembra o seu empenho, a sua luta, o seu sacrifício para ver construído um hospital voltado para o atendimento de seus pequenos pacientes.

Seu retrato não está mais no Hospital. Foi encaminhado para a sede do Rotary, entidade da qual ele foi um dos fundadores. E o nome do Hospital Infantil Dr. Carlos Signorelli também não existe mais. A homenagem feita à sua memória foi apagada, nada mais resta que lembre seu nome.

Fiquei entristecida por ver quão efêmera é a memória humana e quão volátil é a sua gratidão.

Que pena, hoje o Hospital Infantil Dr. Carlos Signorelli é apenas mais uma saudade no meu coração!

Março 2012

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