A ciranda da vida

Por: José Borges da Silva

Era sexta-feira, pouco mais de sete e vinte da manhã e o movimento na velha São Paulo já era intenso. Basicamente pessoas e veículos automotores. Em algumas vias, ônibus e automóveis andavam de palmo em palmo, acelerando e falso. No metrô, que é o meio de transporte que mais utilizo e que, felizmente, coincide com os meus trajetos, o movimento também era grande. Pessoas apressadas, ganhando espaço nas escadarias, nas filas das bilheterias, nas plataformas de embarque... Parece, para quem observa a certa distância, que todos estão indo cumprir missão fundamental. Será mesmo? Pelo menos no metrô, de manhã, parece que todos têm plena consciência do que devem fazer. A convicção é tanta que parece que ninguém pensa. Todos já sabem o que fazer. Os adolescentes com micros aparelhos enterrados nos ouvidos se movem em ritmo musical. Uma senhora, escorando-se em uma bengala, acompanha uma outra, mais jovem, que corre nos limites de sua condição. Eu que, sem razão nem porquê acordara mais cedo pensando no porquê da vida, estava totalmente sem pressa e me tornara mero observador dessa ciranda maluca. Melhor, acho que estava sem pressa exatamente porque acordara mais cedo... Mas, enfim, que a questão existencial me atormentava, ah, isso era fato! Essa tal indagação, infiltrada, vinda de modo espontâneo, me colocara absolutamente à parte da correria à volta. E não sem razão. Afinal, trata-se da questão fundamental da Filosofia, da questão número um da espécie humana.

Mas, como a questão não era só minha, me veio vontade de sair questionando todas aquelas pessoas a respeito. Será que sofreriam o mesmo impacto que eu? Restava conferir.

Naturalmente, como em todo assunto importante, há sempre algumas preliminares necessárias. Afinal, não dá pra chegar nas pessoas e ir perguntando a elas o porquê da vida. E comecei a cogitar de como fazer a abordagem. Antes, me lembrei do Riobaldo, o jagunço protagonista do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, que já advertia: “viver é muito perigoso...” Observação irrefutável, indiscutível. E para treinar a abordagem, ou talvez por falta de coragem de dar início a ela de pronto, continuei ensaiando preliminares. Mas antes ainda, recordei conversas de quando morava na roça, algumas exatamente sobre a questão que me afligia. Lembrei-me de um matuto conversador, que perguntado sobre o que “adiantava a vida para ele”, saiu-se com esta: “Uai, sô... Eu mesmo não sei responder isso não... Mas, da moda do outro, se o sujeito chega na vida pelado, careca, sem dentes e chorando, parece que sabe que veio só pra sofrer mesmo... Mas depois cresce, se distrai, acaba esquecendo tudo de novo... E, destampa nessa correria que o senhor vê por aí...”

Enquanto eu analisava essa resposta intrigante, que me pareceu lançar pistas sobre a questão, o tempo passou rápido e, estando “em cima da hora” com o meu compromisso, me vi obrigado a voltar à ciranda da vida novamente. Naturalmente que sem solução definitiva do problema, embora com alguma coisa interessante, mais interessando do que engraçada para considerar a respeito...

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