As voçorocas e o poeta

Por: Mauro Ferreira

Quem foi garoto nos anos 1960, certamente brincou dentro de alguma voçoroca gigantesca existente na malha urbana da cidade. Eu frequentei a Scarabucci, perto da casa dos meus avós e a das Maritacas, que parecia um canyon americano, ideal para longas batalhas imaginárias entre índios e cowboys.

Lembrei-me delas porque, dias atrás, o país perdeu um dos seus maiores cientistas e ficou mais pobre. Morreu Aziz Ab’Saber, um dos principais especialistas da geografia física no Brasil, aos 87 anos. Era pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Ab’Saber foi um dos mais importantes estudiosos da geomorfologia brasileira e também se destacava por sua participação ativa nos debates sobre biodiversidade e preservação ambiental. Ficou conhecido como uma espécie de poeta da biodiversidade.

A USP, onde ele viveu sua vida acadêmica, emitiu nota dizendo que “ao longo da carreira, Ab’Saber recebeu diversos prêmios como o Prêmio Jabuti em Ciências Humanas (1997 e 2005), a Medalha de Grão-Cruz em Ciências da Terra pela Academia Brasileira de Ciências; e o Prêmio Unesco para Ciência e Meio Ambiente (2001)”.

Aziz teve uma relação importante com nossa cidade. Ajudou a formar pesquisadores e professores, como Benedito e Neuza Machado Vieira, colaboradores em sua pesquisa sobre as voçorocas de Franca que embasaram o primeiro Plano Diretor que esta cidade teve no final dos anos 60. Sua visão antecipatória sobre a ecologia urbana criou boa parte das propostas daquele Plano Diretor, propondo a implantação de áreas verdes nas voçorocas, de proteger os cursos d´água da voracidade dos automóveis, de implantar o parque do vale dos Bagres. No fundo, modificar nossa relação predatória com os cursos d´água urbanos de então, que eram apenas o esgoto da cidade e da indústria.

Infelizmente para a cidade, mesmo com especialistas como Neuza clamando no deserto, as questões que ele colocou para a cidade enfrentar nunca foram levadas a fundo pelos governantes. A destruição do parque do Vale dos Bagres para servir ao “deus automóvel” e da cachoeira natural do córrego dos Bagres foi um prenúncio do desastre que de fato ocorreu, foram milhões e milhões de reais gastos com canalizações de córrego derruídas pela água. Passamos a conviver cotidianamente com enchentes e obras milionárias que não resolvem.

Coincidência. No dia em que ele morreu, caminhando próximo à cachoeira do córrego do Espraiado e vendo aflorar o veio de rocha que corta nosso sítio urbano, que configuraram as três cachoeiras dos principais córregos urbanos de Franca (do Bagres, destruída, do Cubatão, alterada) e vendo o prédio do curtume abandonado espremendo a passagem da água do Espraiado, pensei no que Aziz diria desta vocação nossa, de dar as costas aos rios urbanos, encapsular os córregos para satisfazer nosso desejo de poluir o ar em automóveis e reclamar das enchentes e da poluição das sacolinhas. Não necessariamente nesta ordem.

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