A história de Robson

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Robson sempre fora ensimesmado e apegado à mãe, que por sua vez incutia-lhe os sentimentos de respeito, gratidão e obediência que um filho deveria ter em relação a sua mãe. Fora criado com carinho e firmeza que o transformaram num jovem sério e trabalhador .Era primoroso ao se vestir. Usava calças sociais, camisas bem passadas, cinto e sapatos combinados. Caseiro ,quase nunca saía ,preferindo se dedicar a cuidar da casa e fazer companhia a sua mãe ,viúva, não muito jovem.

Certa vez ,voltando do trabalho, encontrou Isabel, conhecida como Belinha ,bonita e faceira. A natureza falou mais forte e ele se apaixonou perdidamente por ela. Após alguns encontros, um filho se anunciou e ele não fugiu da obrigação. A mãe aceitou o fato consumado e nada fez para impedir sua decisão. O casamento se realizou conforme o planejado, civil e religioso, cerimônias alegres com a presença de familiares, até de outras cidades. Os noivos, bem trajados e felizes, receberam para um almoço, onde se destacavam um risoto de carne moída, coberto com rodelas de ovos cozidos, cortadas bem fininhas e assados diversos, preparados pela mãe do noivo. Belinha morava com uma irmã pequena, após as mortes seguidas do pai e de sua mãe. Vivia de seu trabalho, numa escola infantil, onde era querida por todos. Terminada a festa, os noivos foram para a casa dela.

No outro dia, Robson voltou para a casa de sua mãe e nunca mais conviveu com Belinha. Na pequena cidade onde viviam, comentava-se que jamais havia acontecido algo igual: um casamento durar um só dia. Muitos tinham esperança de que fosse apenas um desentendimento entre o casal, mas o tempo foi passando, a criança nasceu, recebeu toda a assistência até se formar e ir trabalhar na capital e ele continuou no mesmo lugar.

Quando sua mãe adoeceu, Robson cuidou dela com dedicação. Comprava-lhe remédios, fazia-lhe a comida. O quarto era limpo, roupas muito bem lavadas e ela recendia a talco floral. O seu sofrimento foi imenso quando ela se foi para sempre. Parecia que nunca iria ter fim. Para amenizar a saudade mudou-se para o quarto dela e só o trabalho lhe trazia algum alívio.

Após muitos anos nesta vida, casmurro e solitário , recebeu um recado dizendo que Belinha estava à beira da morte e que desejava vê-lo. Atendeu ao pedido, sendo recebido pela irmã dela, que se transformara em uma linda moça, extremamente parecida com a Belinha de sua juventude. Despediu-se de sua outrora esposa, mesmo que tenha sido somente por um dia, e voltou para sua casa.

Novamente a natureza falou mais alto. Robson desmontou o quarto da mãe, alugou a casa e mudou-se para a casa que tinha sido de Belinha e agora era da irmã, prometendo a esta amor e companhia até ao final de seus dias. Bem dizia Proust: ‘o tempo é o senhor da razão’.

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