Olhares sobre finitudes

Por: Sônia Machiavelli

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O momento em que filhos em ascensão e pais em declínio retomam uma ligação, especialmente nas culturas onde ambos, neste período da vida, costumam estar afastados também geograficamente, tem recebido de cineastas atenção cuidadosa que descortina olhares assemelhados. O primeiro a fazer um grande filme sobre o tema foi o italiano Giuseppe Tornatore, com Estamos todos bem, em 1989. O norte-americano Kirk Jones produziu a sua versão em 2010, muito parecida à anterior até no título: Estão todos bem. Dois anos antes o francês Olivier Assayas havia dirigido Horas de Verão, quase ao mesmo tempo em que a alemã Doris Dorrië classificava seu Cerejeiras em flor em vários festivais. São quatro filmes que tocam com sensibilidade questões como impermanência e finitude. Entre uma e outra, irrompem marcantes as menções simbólicas a perdas, arrependimentos, saudade, fugacidade e, principalmente, ao custoso diálogo que, mal se estabelece, aponta incompreensões difíceis de serem transpostas.

Cerejeiras em flor (Kirschlüten no original) é plasticamente o mais belo, dos quatro filmes, em razão da fotografia que elege como cenário recortes do Japão - o interior e a metrópole; e também o mais triste, pela enfática percepção da finitude que os protagonistas traduzem mais com olhares que palavras. O título original é Hanami, palavra que equivale à expressão “contemplar as flores”. No caso específico, flores de cerejeira, espetáculo que nos jardins de Tóquio casa beleza com efemeridade e suscita reflexões sobre renascimentos possíveis.

Parafraseando a história, os protagonistas Rudi (Elmar Wepper) e Trudi ( Hannelore Elsner), não rimam apenas no nome, já que mantêm vínculos muito fortes, estabelecidos ao longo de um casamento de décadas. Ele metódico e conservador, ela discreta e sonhadora, viveriam até o fim de seus dias na casinha da Baviera, não fosse um resultado de exame médico que condena Rudi à morte em poucos meses. Aconselhada por especialistas, Trudi leva Rudi a viajar para se despedir do mundo. Omite-lhe a grave doença, ignorando que os dias podem trazer em seu bojo muitas surpresas. O casal decide visitar os filhos. Dois deles moram em Berlim; o terceiro, em Tóquio. Na capital alemã, Trudi e Rudi passam pelo constrangimento de se sentirem um incômodo. Saem sozinhos a passear pela cidade, inventam programas para não permanecer confinados no apartamento pequeno. Concluem depois de alguns dias que é melhor voltar para casa.

Quando pensamos que a saga vai caminhar para um desfecho previsível, acontece algo totalmente inesperado. O público, surpreso, acompanhará a odisseia de Rudi em Tóquio, convivendo ora com o caçula Karl (Maximiliam Bruckner), ora com a dançarina de butô Yu (Aya Irizuki). O encontro numa praça com esta, será precioso para o velho Rudi, que descobrirá na dança, no Monte Fuji , na floração das cerejeiras e na amizade da menina um sentido menos estreito para sua existência até há pouco tempo cronometrada por horários, esmagada por regras, anestesiada por frases feitas: “ uma maçã, todos os dias, é saúde e alegria...”

O Fuji, maior montanha do Japão, com seu traçado harmonioso e cume na maioria das vezes encoberto por nuvens; as cerejeiras com suas flores de curtíssima duração, que levam milhares de pessoas aos parques; e o butô, dança expressionista que busca recuperar a vitalidade do corpo domesticado por hábitos arraigados, faziam parte do pacote de sonhos de Trudi. Tornam-se índices trabalhados com esmero de ourives pela diretora, muito influenciada pela cultura nipônica. Eles serão emblemáticos do processo de transformação de Rudi, em comovente busca por transcendência. Descortinar o monte resplandescente em sua inteireza . Contemplar as flores que desabrocham todas ao mesmo tempo. Reproduzir os gestos do butô desvelando o que alma tem de mais singular. São instantes que fazem emergir no espectador a consciência do efêmero e do perene. É fugaz nossa passagem pela Terra, parece dizer a diretora roteirista. Mas cada momento vivido intensamente trará em si um gosto de eternidade, parece concluir o personagem.

Velhice, solidão e morte são assuntos difíceis de tratar- até mesmo no cotidiano. Na arte, pede delicadeza para que seja palatável e digerível. Os diretores Tornatore, Jones e Assayas alcançaram o máximo de realismo com muita beleza. Doris Dörrie conseguiu , especialmente no terço final de sua história, elevar a linguagem cinematográfica a níveis de grande poeticidade.


DIRETORA, ROTEIRISTA E ESCRITORA

Doris Dörrie

Nascida em Hannover, Alemanha, em 1955, Doris Dörrie permaneceu na cidade até 1973, quando terminou o colégio. Foi então para os EUA estudar dramaturgia, psicologia e filosofia. Para custear os estudos trabalhou como camareira. Dois anos depois voltou a seu país para se especializar em televisão na universidade de Munich. Entre 1978 e 1981 trabalhou em diferentes canais de TV, rodou documentários, escreveu críticas de cinema para revistas e chegou a redatora no jornal de maior influência da Alemanha. Tem muitas obras de ficção publicadas, algumas para o leitor infantil. Em 2002 uma delas recebeu o prêmio de “Melhor Livro Alemão” do período.

Seu primeiro filme a alcançar sucesso comercial foi Homens, homens , uma comédia que trata das questões de gênero. Também recebeu boa crítica e bom público o filme Sou bonita? Depois viriam Iluminação garantida ; Desnudos ; O pescador e sua mulher; Como cozinhar sua vida. Casou-se em 1996 com Helge Weindler, seu sócio na produtora Cobra. Ele morreu pouco depois, de um câncer raro, durante as filmagens de Sou bonita? Tiveram uma filha, Carla, que mora com a mãe em Munich. Com a morte do marido, a cineasta voltou à vida acadêmica como professora de dramaturgia. Também exibe no currículo trabalhos de teatro, onde dirigiu óperas em colaboração com Daniel Baremboim e Zubin Metha.

Muitos dos filmes de Doris Dörrie têm roteiros assinados por ela, cuja fascinação pelo Japão data de uma década e aparece em muitos filmes. Um deles, Cerejeiras em flor, resenhado ao lado.


Serviço
Título: Hanami- Cerejeiras em flor
Gênero: drama
Direção: Doris Dörrie
Ano: 2008
Atores: Elamr Wepper, Hannelore Elsner, Aya Irizuki, Maximilian Brückner, Nadja Uth, Brigt Minichmayr, Felix Eitner

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