Um tipo curioso

Por: Everton de Paula

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Aparentava ter 50 anos. Nada de extraordinário em sua aparência, em sua rotina de serviço ou em família. Mas tinha lá suas esquisitices.

Difícil falar delas, pois eram formadas por sutilezas de comportamento que só a convivência permitia ao amigo comum identificá-las.

Às pessoas a quem era apresentado, deixava a impressão de ser homem culto, educado, sério, de poucas palavras, compenetrado. E o era, realmente. Mas quem chegou a ter-lhe companhia mais próxima e mais antiga, dizia exatamente o contrário, salvo no que diz respeito a ser educado, respeitador. Para os amigos antigos, Eleazar era homem contador de piadas, que ria muito e bem, bom companheiro, conversador... Muitos estranhavam essas polaridades, esses extremos de personalidade. Mas era preciso certo tempo e certa aproximação para saber que não era Eleazar que carregava consigo extremos de personalidade, mas sim o ambiente e os amigos é que o tornavam assim ou assado.

Talvez ilustrando com alguns exemplos, o leitor possa ter uma ideia desta personagem de hoje.

Pianista amador, Eleazar negava-se a tocar para outros. Deliciava-se com o dedilhar nas teclas do piano de sua sala quando se encontrava só. Aí permanecia por horas, revisitando velhos álbuns de alguns clássicos e muitas, muitas sonatinas nostálgicas. Numa festa qualquer, porém, quando alguém lhe pedia ‘O, Eleazar, toca uma musiquinha aí pra nós!’, desviava o assunto, mudava de lugar, de copo, de conversa, de rumo. Pronto : não era mais o Eleazar afável que ia tocar ‘musiquinha’ no piano, numa festa onde rolasse muita conversa, bebida e descontração. Piano só para este ou aquele amigo, na meia-luz, no silêncio da sala, no harmonizar de almas e sentimentos. Música era coisa para se levar a sério.

Em certas ocasiões, lá ia Eleazar para o bar, com os amigos, raras vezes por vontade própria. Uísque, vinho, cerveja, chop ... mas Eleazar ali, firme, na Coca-Cola com gelo e limão. Santos, Corinthians, Palmeiras? Não, para ele era o Jabaquara.

Outro ponto: a turma espichava na noite; onze horas era o começo, mas a coisa costumava ir aí para uma da madruga, duas, três... Eleazar, no máximo às onze e meia já olhava para o relógio, bocejava e, assim, sem mais nem por quê saía à francesa , deixando os amigos chateados e curiosos.

Comecei a me ocupar em lhe decifrar o perfil. Aproximei-me o mais que pude. Fui apresentado a ele numa conversa informal. Como era de se esperar, mostrou-se educado, de fala baixa, de conversas amenas e inteligentes, atualizado e, até mesmo, dono de uma ironia sutil e sarcástica, a um só tempo, a ponto de divertir as pessoas, mas sem fazê-las rir escancaradamente.

Tomei o cuidado de ir anotando, pelo menos na memória, certos detalhes de seus gostos. Coisas mínimas, mas que formavam certo painel onde as peças que, se num primeiro momento eram estranhas entre si, encaixavam-se perfeitamente à medida que começava a construir aquele quebra-cabeça.

Gostava de chicletes, de sorvete com Coca-Cola, de doces, de chocolate. Paladar de criança. Gostava de ouvir e contar piadas ingênuas mas muito inteligentes. Daquelas que só rimos depois de algum tempo que foram contadas. Gostava de nuvens e neblina, de dias de chuva e, aposto, se pudesse, estaria andando descalço na enxurrada. Seus olhos brilhavam diante de crianças e idosos. A música que ouvia havia de ser serena, instrumental, melodiosa... Dizia a poucos amigos que sua alma se fazia serena quando se sentia pequena ante colunas de catedrais, e menor ainda diante da grandiosidade de certas personagens da história das civilizações, que deixaram marca pelo exemplo de idoneidade, de heroísmo, de bravura... Conservava o hábito de ler biografias famosas. A despeito de sua idade e de seu biotipo nada cinematográfico, erguer-se-ia, de pronto, para impedir uma injustiça física ou moral, arriscando-se contra o malfeitor. Incapaz de um assédio moral a quem quer que fosse, ao contrário, se prestaria a tornar mais confortável a vida de quem se lhe dissesse amigo ou necessitado.

Jogava futebol de mesa, jogo de botão. Conseguia, a um só tempo, fazer rodar pião sobre calçada e discutir idéias de Ginzburg em O queijo e os vermes, de Huizinga em Homo ludens, brincando com O mundo de Sofia, demonstrando paixão não pela filosofia conceitual, mas extraindo daí explicações para o cotidiano aflitivo do homem moderno. No último encontro, falava sobre O cemitério de Praga, e Umberto Eco.

Impecável no serviço e nas discussões intelectuais, mas uma nulidade no convívio social em que se exigia ‘maturidade’ nas futilidades típicas das colunas sociais.

E assim, aos poucos, pude divisar o fio da meada. Eleazar havia, ao longo de sua vida, desenvolvido o seu lado intelectual, prático, de sobrevivência... Mas o afetivo não havia crescido. Era, ainda, uma criança, mas com o pensamento desenvolvido para os aspectos mais profundos e nobres da humanidade.

Só isto poderia explicar a sua fala, o seu terno, a sua pose, o seu meio social, tendo, nas mãos, um copo de refrigerante. Chegou a publicar livros, a proferir palestras memoráveis em diversas cidades, a encantar alunos em cursos diversos, mas ao mesmo tempo refugiava-se na casa de alguém para jogar botão, xadrez, bilhar , ou mesmo passar tardes inteiras diante de um vídeo-game. Eleazar era um intelectual, mas era uma criança.Só podia ser um homem triste e tímido, e não alegre e extrovertido, como muitos pensavam. É que o seu lado criança continuava criança. E esta parte criança assustava-se com o lado adulto que tinha de estar presente no convívio social, familiar e profissional que a vida lhe impunha. A mesma vida que, aos poucos, foi-me afastando de Eleazar.

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