O mistério de Ipameri

Por: Mauro Ferreira

Meu pai foi aprovado no concurso do Banco Hipotecário em meados de 1945 e em seguida nomeado para assumir o cargo na agência de Araguari, no triângulo mineiro. Namorando firme aquela que seria minha mãe, ele logo ficou noivo e marcou casamento em Franca, que era acessível pela estrada de ferro Mogiana. Enquanto isso viveu algum tempo sozinho em Minas Gerais, envolvido com o futebol que sempre adorou, era um centro-avante com faro de gol.

Ele disputava o campeonato da cidade pelo time dos bancários. Até que um dia marcaram um jogo num sábado à tarde, que seria seguido por uma confraternização com os bancários de Ipameri, pequena cidade goiana às margens da estrada de ferro Goiás, que começava em Araguari, também ponto final da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, as duas estações conviviam lado a lado. Após o jogo, haveria um baile à noite no Jóquei Clube daquela cidade, que existe até hoje. Muitos anos depois, o bancário Cruz faria o mesmo tipo de itinerário, só que para Ceres e de ônibus, também no cerrado goiano, mas muito mais distante.

Meu pai era o único solteiro do time. As mulheres dos bancários, todos seus amigos, ficaram preocupadas. Como o Wilson iria se comportar, já que sabiam estar noivo? Durante a sacolejante viagem de trem, elas todas iam conversando sobre isso, se ele iria dançar no baile ou não. As conversas foram interrompidas por um repentino tremor nos vagões e o trem parou no meio do cerrado, sob o sol escaldante da manhã goiana. Os maquinistas não sabiam o que havia de errado com a locomotiva, mas o fato é que a composição parou no meio da viagem. Não havia como consertar, tinham que esperar a vinda de um trem de reparo, com mecânicos e peças, avisados por telégrafo numa estação intermediária de fazenda.

Ali foram ficando, jogando prosa fora e baralho. O horário do almoço passou, a tarde também. O jogo estava perdido, mas o baile talvez não. Só no final da tarde chegaram os operários especializados, o conserto era difícil e entraram noite adentro trabalhando. A comida tinha acabado, tiveram que buscar água numa fazenda próxima, crianças pequenas choravam de fome e cansaço. Tarde da noite, conseguiram consertar a locomotiva e finalmente o trem seguiu viagem.

Quando chegaram a Ipameri, já madrugada, foram direto para o hotel, extenuados. No caminho, encontraram as pessoas todas engalanadas voltando do baile. Ou seja, as mulheres dos bancários de Araguari nunca ficaram sabendo o que meu futuro pai faria no baile de Ipameri. Iria dançar ou não? Nem ele contou o que faria. Ficou o mistério, para sempre.

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