As duas irmãs

Por: Maria Luiza Salomão

Um dia entrei no “Alecrim”, restaurante vegetariano, atraída pela palavra, temperada de alegria. Depois, veio o convívio com as Duas Irmãs que administram o restaurante. Juliane, a chef de la cuisine, sempre pronta a explicar a proposta da Casa, a fornecer receitas e a sugerir ingredientes a quem queira uma cozinha natural (lembra uma hindu, nos olhos amendoados e no tom da pele, ou será o sabor dos alimentos que traem a sabedoria oriental?). Caroline, estudante de Arquitetura, é a “coringa”, apoia o serviço de atendimento às mesas, orienta os compradores da lojinha de produtos naturais e fica no caixa. Lembra uma italiana, no porte e na elegância, na conversa gostosa, fluente. Na simplicidade sofisticada dos gestos e fala, nota-se nas duas, a cultura adquirida em viagens e estudos.

As Duas Irmãs lembram personagens, possivelmente saltaram de um conto exótico, em um tempo secular. Há algo no elo que as une (que não se vê nos dias de hoje), no requinte da comida bem preparada e esteticamente servida, no lugar hospitaleiro, na decoração sóbria e desarmada, na disposição firme e empática no trato com os clientes. Às vezes elas se fazem notar pelo rico silêncio de suas presenças.

Sem correrias, elas são precisas, pontuais. São belas, encore. Sem vaidade, escondem os longos e saudáveis cabelos em toucas, uniformizadas em roupas e sorrisos. Compõem um dueto musical, de poucas palavras, ritmadas, atentas às necessidades de todos, como duas crianças a brincar seriamente, ou dois músicos a ensaiar os instrumentos. Mesmo lotado o salão, tudo flui sereno, sorrisos, vozes baixas basta um gesto e as duas se movimentam, quietamente. Escuto seus risos quando conversam com um ou outro cliente, (as pessoas se contagiam, exibindo um estado de espírito leve e descontraído) temperando o ar de bom humor. Invariavelmente perguntam aos clientes: “ficou satisfeita (o)?”. Delicadezas antigas entre comensais. Comungo delicadeza, curiosidade, prazeres simples, gestos, olhares, silêncios, com novos e interessantes amigos, lá.

Morre-se um pouco a cada dia, é certo, mas é possível ressuscitarmos ainda melhores, re-inventando lugares, trajetos e comunidades. É preciso, como Moisés, abandonar lugares que nos escravizam (que endurecem e brutalizam a Alma) e seguirmos, temperados em Coragem, Confiança e Fé, em busca de alguma Terra Prometida. Não um Continente Prometido! Pode ser uma “terrinha prometida”, a poucos passos de onde vivemos. Um lugar a encontrar. Talvez possamos aprender, de novo, a compartilhar o maná (não o dos céus), elaborado em prosaica cozinha, e servido em ritual profano, cabendo a cada um sacralizá-lo, em nome da Vida.

Não é feito desta substância o ritual da Páscoa?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras