Ao Pé da Letra

Por: Eny Miranda

A última tarde que desfrutariam juntas, antes do reinício das aulas, a avó dedicou-a, inteira, à neta, e, esta, à avó.

Sem nuvens, sem sombras, sem riscos, sem rabiscos, sem rascunhos. Azul. Passada a limpo no espaço ameno do carinho; janela aberta para a alma do que há de mais comum e mais extraordinário na vida. Uma tarde de olhos e coisas e chãos encantados (para Manoel de Barros, homem de encantamentos, “Olho é uma coisa que participa o silêncio dos outros. Coisa é uma pessoa que termina como sílaba. O chão é um ensino”).

Nessa tarde, pois, de ensinos, pessoas-sílabas e silêncios, ambas, em consonância de espírito, buscaram e encontraram, no meio do caminho, um pé de letra(s). Foi assim que avó e neta se descobriram, entre ponteiros perdidos e números vagos, livremente presas aos delicados fios e laços que ligamfinitudes a infinitudes. Foi assim que ambas se viram mergulhadas, tarde adentro, séculos afora, nas teias da palavra -universo de traços e espaços onde o silêncio de vozes e tempos escoa e ecoa. E, como diria Cecília Meireles, naquele “jardim de puro tempo / com ramos de silêncio unindo os mundos”, mais uma vez, provaram os frutos, beberam o suco, sentiram o sumo da habilidade e da sensibilidade de muitas mãos e almas; leram e escreveram, em verbo e verso,o seu momento.

Livrarias são árvores que abrigam mundos: pés de gentes, pétalas, chãos... É ainda Manoel de Barros que diz, em seu genial Cartões postais: glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) ou menos: “Árvore, s. f. Gente que despetala / [...] / Aquilo que ensina de chão”.

Em Franca, há uma árvore à espera dos que gostam de “gente que despetala”, dos que buscam chão e ensino, dos que amam jardins de tempo e neles adivinham ramos de silêncio unindo mundos. Em Franca, há um Pé da Letra firmando raízes na alma de avós e netas e pais e filhos...

Aquela neta e aquela avó o encontraram, em inesquecível tarde de reencontros.

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