Conversa à italiana

Por: Everton de Paula

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Tenho plena certeza de que a senhorita Paola Miglioranza tinha a melhor das intenções quando me deu o livrinho. No momento em que soube que eu estava pensando numa viagem à Itália, fez questão de que eu o tivesse. Aliás, a ideia de visitar o Centro Cultural Ítalo-Brasil de Franca foi de minha esposa, na certeza de que encontraríamos mais e amplas informações sobre a Itália do que aquelas que obtivemos na agência de turismo.

A solícita Paola apressou-se a explicar que não se tratava de um guia linguístico comum, do tipo habitualmente levado pelos turistas. Era um guia escrito para os italianos, um Manuale di Conversazione, ou, na minha tradução elegante, “Conversa à italiana”.

- Com este livrinho, disse-me a bella ragazza, aprenderá a falar como os italianos falam entre si.

Folheei o livro e dei com os olhos na seguinte troca de palavras:

“Que barulho foi esse?”

“Nada. Apenas uma explosão.”

Olhei espantado para Paola que me disse:

- Aí não. Vou mostrar como é. Abra em outra página.

Aparentando sofisticada disciplina, folheei o livro e espetei o indicador numa página qualquer. Dizia: “Non potete insegnare alla nonna a bere le uova. Não queira ensinar sua avó a tomar ovos.”

Paola inclinou-se e examinou as linhas e depois me fez uma careta, como se eu é que as tivesse escrito.

- E isto aí? perguntei. Vou sair pelas ruas de Roma, Veneza e Nápoles dizendo isto ao povo italiano?

- Por favor protestou ela. Abra num lugar qualquer no meio do livro: hotéis, estradas de ferro, lan houses, restaurantes...

Assim fiz e cheguei a uma seção de avisos: “Cuidado com o cachorro! Cuidado com os ladrões! Cuidado com os macacos!” Deparei então com uma frase espantosa: “Fraturei as clavículas.”

Fechei os olhos, sacudi vivamente a cabeça e refleti como os italianos andam preocupados quando conversam entre si. Um barulho forte que não era nada, apenas uma explosão, e agora macacos, ladrões, a nona tentando beber ovos e se engasgando...

Paola, agora um pouco mais nervosa, recomendou-me que tentasse outro trecho do livrinho. Entrei em ação e prontamente descobri que, para gozar plenamente a minha estada na Itália, terei de exprimir sentimentos amenos como “Estou com frio. Estou com calor. Estou com fome. Estou cansado. Estou doente. Pode ajudar-me? Não tive culpa. Não consigo encontrar meu hotel. Perdi-me de meus amigos. Esqueci o dinheiro. Perdi o trem. Estão-me incomodando. Vá-se embora. Fui roubado. Onde é a seção de achados e perdidos? A navalha está arranhando. Não, eu reparto o cabelo do outro lado!”

Agora eu que estava ficando nervoso. Na parte reservada ao aluguel de um carro encontrei: “Desculpe, fiquei confuso no tráfego. De quanto é a multa?” “O pneu furou. É um furo pequeno. O motor está rateando. Veja, está pegando fogo!”

Santo Papa, que inferno!

Pensei que talvez fosse melhor não alugar um carro. Que tal, em lugar disso, um bom passeio de barco pelo belo Adriático? Voltei-me cheio de esperança para assuntos marítimos e ali estavam as mesmas lamúrias, à italiana: “Estou enjoado. Por favor, mostre-me o caminho mais curto para o meu camarote. Tem certeza de que estamos na rota? Onde estão as pílulas? Um médico, por favor. Vá-se embora!”

Um cruzeiro no Adriático... Nunca!

Lembrando-me da habitual preocupação que tenho com a saúde quando viajo, voltei-me com mórbida fascinação para a parte médica. Dentro em breve, estava sofrendo de doenças de cuja existência nunca tinha sabido, porque a animada conversazione ia assim: “Sinto dor nas costas, no estômago, na cabeça, nos rins, em alguns ossos. Sinto essas dores antes de comer. Quando ando a cavalo. Quando caminho depressa. Quando estou sentado. Sofro dores de cabeça, vertigens, náuseas, cólicas do fígado, urticária, morbillo (sarampo) e orecchioni (caxumba).”

Saí fugindo daquele capítulo como uma gazela assustada.

Já a essa altura, estava me sentindo bem desanimado, sconsolato. Parecia-me ilógico que férias passadas na ensolarada Itália devessem ser marcadas por tantos desastres e interrupções fora do programa, tais como cólicas do fígado, motores desregulados, clavículas quebrando aos pares, macacos e ladrões soltos nas ruas e avós encarquilhadas que ficam sentadas tomando ovos.

- Acho que vou adiar a minha viagem à Itália disse eu à Paola.

Foi quando ela, com o livrinho nas mãos, consultando-o cuidadosamente, riu bastante e depois me fitou com seus olhos claros para dizer:

- Desculpe-me, senhor, parece que houve um engano aqui.

E riu mais um pouco. Aquele riso estava me deixando mais nervoso ainda. Aí ela me explicou:

- Este livrinho não é sobre a Itália. Os perigos e desastres descritos não são de Roma, Florença, Veneza. O livrinho foi impresso para o bem dos italianos que estivessem se preparando para uma viagem ao Brasil, entre nós, principalmente no Rio de Janeiro, São Paulo...

Um grande peso me foi tirado do espírito e uma vertiginosa ansiedade me dominou. Agora eu queria partir para a Itália imediatamente. Só Deus poderia saber o perigo que eu e minha esposa estávamos correndo aqui, entre nós, no Brasil!

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