O Livro do Boni

Por: Sônia Machiavelli

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“Fazer televisão é fácil. Comunicar é difícil.” Estas frases abrem um dos últimos capítulos de O Livro do Boni, autobiografia de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, nome que figura entre os maiores conhecedores do fazer televisivo no mundo e um dos criadores do chamado “padrão Globo de qualidade” no Brasil. Tijolo de 464 páginas, algumas com fotos raras, o livro é exemplificação detalhada deste processo aparentemente linear na sua forma, mas especialmente complexo na busca de concretização de seu objetivo máximo. Ao longo do tempo grandes projetos de mídia permaneceram na superfície, incapazes de transformar imagens, textos e sons em verdadeira interação com o grande público brasileiro. Outros se ergueram magistralmente, contando com profissionais competentes, antenados com o novo, mas conscientes de que a bagagem trazida do passado não deveria ser desprezada. E sobretudo com uma capacidade de trabalho singular e condições de manter por muito tempo parcerias criativas. Boni se filia a este segundo tipo de empreendedores.

Seu livro reúne uma quantidade impressionante de histórias, nomes, datas, lugares, eventos que pontuam a linha do tempo de sua vida, especialmente a partir dos quinze anos, quando órfão de pai e com problemas financeiros começou a trabalhar no rádio, até o ingresso na televisão brasileira que ele ajudou a construir passando por vários canais: Tupi, Paulista, Rio, Excelsior e Globo.

De Dias Gomes a Sílvio Santos, de Chico Anysio a Faustão, de Joe Wallach, (superintendente de administração e ex- homem forte da Time-Life no Brasil) a Roberto Irineu Marinho, (o filho do dono da Rede Globo), que em 1998 colocou o autor na berlinda em “matéria vil e infame no jornal O Globo, sem a menor consideração pela contribuição que dei à empresa de sua família”: tudo está no livro. Da jurássica Glória Magadan à moderna Janete Clair, de Débora Duarte a Glória Menezes, de Tony Ramos a Tarcísio Meira, de Daniel Filho a Jô Soares, e percorrendo todo o abecedário artístico, com nomes e feitos e festivais de música- estes, num capítulo pra lá de surpreendente: está tudo lá. Com bom humor que confere leveza a cada página, independente da seriedade do assunto tratado.

Alguns seres têm direito a afagos especiais, como o Dr. Roberto, descrito na clave da cordialidade. Ou Dercy Gonçalves, querida amiga que às vésperas dos cem anos ainda lhe enviava, todos os sábados, um prato de carne assada que era sua especialidade. Outros são retratados ainda sob o efeito do grande desgaste causado no passado, como Chacrinha, que descumpria tratos e contratos sem a menor cerimônia. Há expressa gratidão a muitos, mas neste quesito o lugar de honra cabe a Manoel da Nóbrega, um dos primeiros a empregar o jovem Boni. Também se descortinam conflitos que parecem ainda incomodar, como o derivado da relação importante que teve com Walter Clark. Este o levou para a Globo no começo de 1967, um ano depois de ter sido contratado. A profícua parceria Boni (1935) e Clark (1936-1997) alçou a Globo à liderança de audiência e mercado, mas acabou em inimizade. Em 1991, Clark publicou suas memórias, O Campeão de Audiência, onde responsabilizou Boni por sua demissão da emissora em 1977, depois de uma década de trabalho. Num dos capítulos da autobiografia em foco, Boni responde a Clark, ao resgatar lembranças do período. Se suas explicações convencem, caberá ao leitor julgar.

Outro trecho, pequeno mas de impacto, traz à cena lance histórico que definiu período negro na nossa República. Trata-se da edição do debate que colocou frente às câmeras da Rede Globo Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello em 1989. Boni admite que Roberto Marinho interferiu de modo direto e depois, com a repercussão negativa, acusou Armando Nogueira de não estar no Rio, na ocasião, o que teria permitido uma edição feita com mais critério (?). Como no caso anterior, se as argumentações de Boni convencem no sentido de inocentá-lo, será o leitor quem vai dizer.

Mais que uma biografia, O Livro do Boni é um inventário. Lançado no último novembro, tem despertado comentários diversos. Em sua maioria, eles convergem para a percepção de que a leitura da obra torna mais nítidas as circunstâncias e mais claros os movimentos que ensejaram o aparecimento, o desenvolvimento e a reinvenção da televisão no Brasil. Sob este aspecto, não há outro similar.
 

PREFÁCIO (INTERESSANTÍSSIMO)

Domenico De Masi

Quem assina o prefácio do livro resenhado ao lado é o sociólogo Domenico De Masi. A partir de uma frase de Federico Garcia Lorca, “Todos llevamos um grano de locura/ sin el cual es imprudente vivir”, ele engendra sua tessitura textual que mais do que apresentar a obra, desvela a persona criativa do autor. Destacamos abaixo alguns trechos.

“Boni nasceu em 1935, oito anos depois de Fritz Lang filmar Metropolis e um ano antes de Charlie Chaplin filmar Tempos modernos. Naquela época somente os Estados Unidos, a Inglaterra e mais alguns poucos países do mundo eram industrializados. Todo o resto do planeta, inclusive o Brasil, continuava sendo basicamente rural.”

“Ainda em meados do século XX, os jovens do Rio e de São Paulo sonhavam com um emprego nas fábricas, nos bancos ou, quem sabe, almejavam tornar-se empreendedores no promissor mercado da indústria automobilística. Boni, por sua vez, llevaba dentro un grano de locura: sentia-se atraído pelo rádio e pela televisão: em um mundo pré-industrial, já desejava uma vida pós-industrial.”

“Filho de um dentista e uma psicóloga, neto de um avô que perdera tudo no jogo, Boni conseguiu realizar seus propósitos mesmo tendo ficado órfão com 7 anos de idade: ainda criança ficou apaixonado pelo rádio; na adolescência, ficou totalmente fascinado pela televisão, e esses dois amores, transformados em unívora loucura, o acompanharam pelo resto da vida como um demônio insano.”


Serviço
Título: O Livro do Boni
Autor: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho
Gênero: Biografia
Editora: Casa da Palavra
Número de páginas: 464

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