A mulher de César

Por: Chiachiri Filho

Na Roma antiga, costumava-se afirmar que “à mulher de César não bastava ser honesta, era também indispensável que ela parecesse honesta”. Evidentemente , essa máxima não se aplicava somente nos relacionamentos dos Césares com suas mulheres. Ela se aplicava, com muita propriedade, à vida e aos homens públicos. Não era suficiente para um Senador romano um comportamento íntegro, irrepreensível, digno. Esse comportamento deveria projetar-se aos olhos do povo, isto é, o povo deveria vê-lo e aceitá-lo como tal.

Grande parte do mundo ocidental recebeu como herança a Língua, o Direito, a Cultura, enfim, muitos dos costumes e tradições da civilização romana. O Brasil, país latino, recebeu essas influências do velho Portugal. Recebeu-as, assimilou-as e passou a usá-las com as devidas adaptações. A máxima da “mulher de César” chegou também até nós e aqui foi usada, abusada, explorada e desvirtuada. Com muita habilidade e esperteza, o político brasileiro passou a usar somente a segunda parte da expressão, isto é, “precisa parecer honesta”. A primeira parte foi olvidada . Por conseguinte, as aparências ( e só as aparências) têm significado para certos homens públicos de nossa terra. Não há necessidade de uma conduta correta, incorruptível, íntegra, responsável. O fundamental é que essa conduta irreprovável seja vista e reconhecida pelo povo. Daí a importância da mídia na formação da imagem do político nacional. Se ela lhe for favorável, tudo bem. Se ela lhe for contrária, tudo mal. Na verdade, não conhecemos profundamente os nossos políticos. Conhecemos, isto sim, a imagem que os meios de comunicação nos transmitem sobre eles. Não convivemos com os nossos representantes. Há uma considerável distância entre nós e eles. Sabemos de sua vida, de sua moralidade, de seu comportamento através dos meios de comunicação. Por isso, só conhecemos as aparências.

Quem visse o Senador Demóstenes apontar seu dedo acusador contra o governo e portar-se como um paladino da moralidade pública, jamais poderia suspeitar de suas ligações clandestinas com o mundo do crime ( ou da contravenção ). Infelizmente, Demóstenes não é um caso isolado. Demóstenes é, simplesmente, um caso revelado. Quanto mais estão escondidos por ignorância ou conivência dos meios de comunicação? Portanto, prezado leitor, no Brasil, ao lado da máxima romana da “mulher de César”, é preciso que não nos esqueçamos da sabedoria popular que afirma “as aparências nos enganam”. E como!!!

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