Meu iPad, Buda e eu

Por: Jane Mahalem do Amaral

Há alguns meses ganhei de presente de meu marido um IPAD. Confesso que nunca desejei ter um, mas vindo como presente, resolvi recebê-lo e aprender a conviver com aquele novo desafio. No começo, tudo muito estranho. Não sou nem da geração do computador, quanto mais da tela touch screen (para os que não sabem, como eu não sabia, isso significa “tela sensível ao toque”). Pois bem. Aos poucos, fui me relacionando com ele , aprendendo e deixando que minha intuição também me levasse em direção ao novo, pois quando colocamos barreiras limitadoras, acabamos nos fechando para novas aprendizagens. Dizer que foi fácil, não é verdade, mas também não foi muito difícil. A cada descoberta me sentia poderosa e contava para as minhas filhas. Aprendi a usar diferentes aplicativos (vejam que já estou falando como os “internautas”!), entrei para o famoso Facebook, comprei livros digitais, descobri o jornal digital, aprendi a fazer anotações em reuniões, coloquei lá todas as minhas músicas, fotos, fiz agenda e, quando percebi já estava andando com meu IPAD para todos os lados. Ele se tornou meu companheiro inseparável. Nas viagens o levava para ver os emails, ler as notícias e para ler meus livros. Confesso que comecei a me sentir mais “antenada” e por que não dizer, mais jovem: eu passei a fazer parte do mundo de Steve Jobs e, hoje, esse nome é sinônimo de inteligência e poder.

Acontece que em um caminho paralelo, o Yoga, a Meditação e a Espiritualidade, me levam sempre para leituras mais reflexivas, para o silêncio e para os ensinamentos dos grandes Mestres, Sábios e Mahatmas das diferentes tradições. Eu estava justamente lendo um livro sobre a vida de Buda, quando aconteceu o inesperado: acidentalmente, em um momento de pouca atenção na ação, meu IPAD simplesmente escorregou das minhas mãos, caiu no chão e quebrou sua linda tela touch screen!

No primeiro momento eu não acreditei que aquilo pudesse ter acontecido. Depois, uma tristeza imensa me invadiu, tomou conta de mim, passei a me culpar e, a cada vez que eu olhava para aquela tela espatifada, eu tinha um sentimento de perda irreparável. Foi quando me lembrei do Buda. Toda sua filosofia e ensinamentos estão baseados no desapego. Ele ensinou há 2.500 anos, quando viveu no norte da Índia, no V e VI séculos AC, que a verdadeira raiz de todo o sofrimento humano é o apego. Ensinou que sofremos porque nos identificamos com aquilo que é impermanente. Sofremos porque não conseguimos enxergar além de nossas pequenas ilusões (e ilusão é exatamente aquilo que não é). Buda se iluminou, aos 35 anos, quando compreendeu que o grande sofrimento do homem estava sempre preso ao constante aparecimento e desaparecimento, ao nascer e ao morrer. O desejo de manter a permanência daquilo que é efêmero é que nos faz seres infelizes, pois todo o poder, toda a ciência ou dinheiro do mundo não são capazes de modificar o ciclo vital que é nascer, viver e desaparecer.

Olhei novamente para aquele aparelho - o qual eu já tinha até humanizado - e percebi que eu talvez estivesse sendo abençoada, pois aprendia a lição do desapego através dele. Lidar com as perdas, eis a questão limite. E o que significa realmente uma perda? Como nos comportamos frente às perdas? Lembrei-me do ensinamento búdico e vi o quanto ainda estou apegada a coisas e fatos... E o que dizer do apego às pessoas que amamos? Muito a caminhar, muito a compreender, muito a desapegar...

Não sei se vou comprar um novo IPAD. O meu, apesar da queda, ainda está funcionando. Talvez isso seja o essencial. Vou apenas aprender a conviver com sua nova aparência que irá , a todo momento, me lembrar de sua fragilidade.

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