Pão duro ou controlado?

Por: Mauro Ferreira

A morte de Chico Anysio me fez lembrar como seus personagens foram inspirados em tipos populares que conhecemos. Maciel era militante em tempo integral do sindicato da sua categoria profissional. Fazia uso das aulas de retórica, de análise de conjuntura e desinibição para falar em público em suas aulas na escola, tudo o que aprendia nos cursos da CUT ele usava com seus alunos para melhorar a qualidade de suas aulas. Vindo de um pequeno município, onde viveu na zona rural, Maciel trazia consigo a experiência concreta de ter vivido com poucas posses e isso o fez valorizar o uso do dinheiro que passou a ganhar como professor numa escola da rede pública da grande cidade, para onde se mudou ainda menino e se formou na universidade. Apesar do tempo passado, cultivava as amizades que havia deixado na cidadezinha de onde tinha vindo.

Todas as vezes que queria visitar seu amigo de infância Lero-lero, um professor como ele envolvido com as questões do patrimônio histórico e a Carta de Veneza, procurava um colega que viajava toda semana para lá. Ele já sabia o que o esperava: a cama de paina da dona Filomena, mãe do Lero-lero, o café passado no coador de pano, o bule metálico que ficava sobre a borra do fogão, a lenha quente até a noite naquela cidade entrincheirada nas encostas dos morros mineiros. E também o pão de queijo, o bolo de fubá, o bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o imbatível almoço com arroz, feijão e bife acebolado. E o principal: tudo grátis.

O Lero-lero era um solteirão convicto que ainda vivia com a mãe e gostava quando ele o visitava, colocavam as fofocas em dia. Ele marcava os dias de ida e volta em função do colega que viajava até lá para lecionar, com isso tinha carona gratuita de ida e volta. Ligação telefônica, só a cobrar. Sua fama foi esparramando entre os colegas, ia se incorporando ao folclore sobre o Maciel, já conhecido como pão-duro na sala dos professores e no sindicato. Certa vez, na viagem (de carona, claro) para sua cidadezinha natal, ele começou a remexer numa bolsa que estava no banco traseiro e atrapalhou o motorista, quase provocou um acidente. O professor que dirigia perguntou-lhe o que estava fazendo e ele: “pegando dinheiro para o pedágio”. Espantado, o motorista respondeu: “mas nesta estrada não tem pedágio!”.

Já o motorista da van do sindicato sabia que toda vez que iam até a capital para reuniões e assembleias logo que saiam o Maciel dormia. Não via nenhum dos pedágios. Resultado, onde tinha, ele dormia. Onde não tinha, ele queria pagar.

Quando a namorada reclamou de ter que pagar sua entrada no cinema chamando-o de pão-duro, ele virou personagem do grande Chico Anysio que dizia: “pão duro, não, eu sou controlado” e ainda complementou como o professor Raimundo: “é que o salário do Alckmin, ó”.

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