O que nos sustenta

Por: Lucileida Mara de Castro

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”

Um dia desses o Paulo me mandou a frase que abriu as portas para essa reflexão. É atribuída à Clarice Lispector, embora, em tempos de internet, nunca saibamos ao certo...

O fato é que não tive tempo de vasculhar as coisas de Clarice para comprovar a autoria. Creio, no entanto que, independentemente de onde minha busca me levasse, a provocação estava lançada: qual defeito poderia ser o sustentáculo desse labirinto que é meu mundo interior?

Sorrio intimamente. É bem a cara do Paulo: inteligente, ousado, racional, desafiador, sair-se com um assunto desses... Tenho vontade de fugir para as figuras de linguagem: esconder-me atrás de metáforas seria uma solução. Também, talvez só um pouco de eufemismo não fizesse mal.

Uma rápida caminhada até a locadora, um bom filme, alguns momentos de distração e talvez o incômodo instalado pela frase fosse desfeito. Talvez. Entretanto, como lidar com esta fresta deixada pela distância que separa a dúvida da certeza? Como lidar com a porta entreaberta para abismo fascinante da alma?

Pois bem, vamos colher esse desafio logo de vez: dou voltas em torno de mim mesma, busco a chave da pergunta, busco a porta da resposta. Afinal, o que sustenta o edifício de minha alma são meus defeitos ou minhas qualidades?

Ah! Clarice... Que armadilha bem construída. Que convite valioso para que o leitor trilhe os caminhos do próprio edifício... Por que vacilo? O que justifica esse sorriso amarelo e a falta de energia para enfrentar a empreitada? Ficaria mais fácil se eu olhasse para o quintal do vizinho e tentasse uma leitura de alma alheia?

Poderia cortar alguns de meus defeitos? Não creio... Fosse eu mais burocrática, metódica, uma arquivista perfeita, não suportaria conviver comigo mesma. Eu gosto de sair por aí pelos caminhos do pensamento, fluir, pular de um livro para outro brincando de intertextualidade e depois perder dias, meses, procurando uma ideia que me impressionou: quando nos encontramos novamente é uma alegria, uma redescoberta, estamos íntimas!

Tampouco acho que poderia abrir mão do meu racionalismo que, sei, incomoda tanta gente: funciono bem em situações de emergência, inclusive naquelas em que salvo a mim mesma das armadilhas da vida. Tenho sido capaz de reconstruir meus jardins interiores desfeitos pelos problemas que a caminhada me impõe e encarar esses percalços como simples desafios que abrirão novas possibilidades.

Descubro que gosto dos meus defeitos. Eles são parte de mim. Luz e sombra, branco e negro, direito e avesso. Meus defeitos me dão veracidade, leveza, coragem para romper paradigmas, construir pontes, romper com situações que me desagradam, despreocupação para vestir roupas que descombinam e sair por aí assobiando quando estou indo para a batalha da minha existência. Nesses momentos estou una, sou única e plena porque admito que sou o que sou e isso, quero crer, não é pouco.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras