Pela estrada

Por: Eny Miranda

No último sábado, Dario me fez um convite tentador: apreciar paineiras floridas, ao longo de rodovias vicinais.

Nas reservas de mata nativa, inúmeras ilhas, brancas ou róseas, se dispõem acima do verde, em busca de luz. Às margens das vias asfaltadas ou das estradinhas de chão batido; no terreiro das casas humildes ou na sede das amplas fazendas, elas também se destacam, ostentando cores de seda.

Entre nós, o outono pode ser visto como um primaverar extemporâneo. As paineiras abertas em flor são alegoria de eclosão no decíduo, possibilidade de alegria matinal na melancolia do ocaso. Suas copas floridas e seus troncos rugosos e espinhosos encerram em si mesmos qualquer coisa de metafórico.

Seguimos com e entre elas.

No fausto desse híbrido e cálido momento, há o toque do inverno: um espaço abandonado circunda pequena casa decadente, inabitada.

Nem sempre foi assim, conta-me Dario, habituado à estrada, que vem percorrendo ao longo dos anos, a caminho do trabalho. No início, havia ali um casal maduro e três rapazes, sempre ocupados com o jardim, a horta, as aves e algumas (poucas) cabeças de gado. Depois, eram o casal e dois rapazes; mais tarde, o casal e um rapaz, e, finalmente, apenas o casal. Agora, nada além da triste, fria tapera.

Penso então nas paineiras floridas e em suas enormes copas, que imitam a névoa: densa, quando vista ao longe, vai-se raleando, à medida que dela nos aproximamos. Penso nas paredes daquela casa, antes impregnadas do aroma de café coado e de pão saído do forno; na rústica vasilha abarrotada de leite espumante, extraído de grandes e dóceis úberes - as vacas ruminando, serenas; olhos mansamente pousados no tempo. Vejo a família reunida em torno da mesa posta, o fogão aquecido, as panelas de ferro e seus perfumados conteúdos fumegantes. Vejo as gamelas repletas de laranjas e tangerinas maduras e imagino um quintal de muitas árvores frutíferas.

Penso na frágil arquitetura da vida, continuamente elaborada e desfeita: tão bela quanto dolorosa e volátil. Tão lábil. Sonho, névoa, dor -paineira, com seus imponentes troncos e acúleos afiados, suas copas enfloradas, dizendo primavera em pleno outono e invernando entre painas e cápsulas secas.

Quem poderá fugir desse delicado equilíbrio?

Deixo então que meus olhos e meu coração brindem o momento presente, a vida presente. Aceito o convite. Aprecio simplesmente a beleza das paineiras em flor.

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