A missão impossível

Por: Maria Luiza Salomão

168157

“Educar, ao lado de governar e analisar, é uma profissão impossível”
Freud

Sinopse: Inspirado numa memória publicada pela jornalista Lynn Barber, o filme se passa em 1961 e conta a história de Jenny (Carey Mulligan), garota inglesa de 16 anos, que sabe pouco da vida. Entediada, escuta Juliette Greco, sonha com Paris, e em se tornar adulta. Seus pais Jack (Alfred Molina) e Majorie (Cara Seymour) a educam de maneira tradicional e esperam que ela vá para a Universidade de Oxford. A garota é brilhante, estudiosa, e quer ser dona do próprio nariz. Surge David (Peter Sarsgaard), um homem 20 anos mais velho, que a seduz com glamour (viagens, festas) e menospreza a importância que a jovem dá aos estudos. A garota antecipa uma das atitudes que iria marcar as décadas de 60 e 70: a quebra das tradições. Enfrenta a diretora da escola católica onde estuda (Emma Thompson). Vive um embate entre a educação formal, que passa a desprezar como tediosa, burguesa, ou o glamour de uma vida ao lado de alguém supostamente mais experiente e carismático.

Educação, o filme, 2009, será comentado, no Cinema e Psicanálise, pela analista didata Suad Haddad de Andrade, da SBP de Rib. Preto, e da SBP de S. Paulo. O filme retrata a cultura britânica, entre o final da II Grande Guerra, e o início da chamada Revolução Sexual, meados dos anos 60.

A professora e a diretora da Escola de Jenny percebem o dilema da garota, e tentam ampará-la nas suas escolhas (em vão) e são as únicas adultas a tentar alertá-la. Há dubiedade no caráter dos outros personagens do filme. A garota se deslumbra com David, ansiando pela oportunidade de viver situações que a coloquem próxima dos seus devaneios de se tornar uma mulher adulta sofisticada. Os pais de Jenny, suburbanos, igualmente deslumbrados, sucumbem ao devaneio de ter David como genro, como se ele fosse a escada para alcançarem outro status econômico-cultural. Sem espírito crítico, a família sucumbe ao estilo de vida tentador acenado por David. Pais e a filha se desviam dos desejos de instrução formal de Jenny em Oxford. Mas desviam também de seus princípios, quando o pai de Jenny se deixa seduzir por David, ao afrouxar critérios usados na educação da garota (horários de saída para encontros, autorização para viagens, sem investigar David e seus supostos amigos).

O roteirista, Nick Hornby, vê o dilema de Jenny como se dando entre a Educação formal e o “viver a vida”, ou o da “perda da inocência”. Vejo questões éticas, ainda mais, envolvidas nas escolhas de Jenny. A adolescente demonstra uma “ingenuidade maliciosa”, uma disposição, própria da sua personalidade, a se deixar seduzir pelo que David lhe acena. Ela mente aos pais, aceita infrações de David, encobrindo-as. David explica a ela uma manobra perversa que faz no seu trabalho. Sendo corretor de imóveis, aluga um apartamento para uma família de negros em um prédio onde vivem pessoas racistas. É uma manobra. David força, assim, a saída dos racistas (vizinhos compulsórios dos novos inquilinos) que acabam por vender, a ele, David, os seus imóveis, a um preço mais barato. Jenny também percebe, de outra vez, que David saqueia objetos valiosos de casas de velhinhas que ele visita (chamando de desperdício aqueles objetos estarem com as velhinhas, e não com ele). David justifica seus atos: como bancar o tipo de vida sofisticado, ansiado por Jenny e pelos seus pais?

Como fazemos as escolhas? Como os pais ajudam os filhos nas suas escolhas? Jenny saberia discriminar, sozinha, os sentimentos evocados por David? Quando os pais de Jenny afrouxam os seus princípios, seduzidos, da mesma forma como a filha foi seduzida, não criam um campo propício a mentiras, hipocrisias, confundindo a tomada de decisão da filha?

É saudável haver conflitos entre as gerações. Em geral, eles se baseiam em valores, os que devem permanecer, sustentando a humanidade no humano, e aqueles que vão ser criados, para uma expansão desta mesma humanidade. É bom lembrar que os filhos da geração 60 se tornaram pais dos pais dos adolescentes que vemos por aí...

Entre a Tradição (ação conservadora) e a Inovação (ação criativa), o que parece favorecer o crescimento humano? E, na outra ponta da questão: o que parece levar a um caráter mal formado, tornando-se uma patologia dos excessos, do desborde (drogas, obesidade) ou do vazio (anorexia, narcisismo, incapacidade de pensar os pensamentos, de simbolizar, e, portanto, comunicar sentimentos?). Educar, afinal, é o que?

Educar, missão impossível, não seria educar-se, antes?


HUMILDE E DESPOJADA

Lone Scherfig

A diretora é dinamarquesa, casada com um psicólogo. Filmes: Italiano para Principiantes, 2000, Um dia, 2011, baseado no livro homônimo, de David Nicholls (filme disponível para locação em Franca). Educação recebeu 3 indicações ao Oscar 2010: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan), Melhor Roteiro Adaptado. Lone Scherfig diz que os escritores não a procuram quando escrevem sobre guerras. Ela se interessa por pessoas comuns e seus dramas, sendo capaz de captar intensidades afetivas em situações “não-extraordinárias”, como qualquer bom poeta.

Lone faz parte de um movimento cinematográfico internacional (Dogma 95) liderado pelos cineastas dinamarqueses Lars Von Trier (Melancolia, 2010), e Thomas Vinterberg. Em um manifesto (apelidado de “voto de castidade”), lançado em 1995 em Copenhague, os cineastas declaram intenções e estabelecem regras técnicas visando resgatar o cinema, como era feito antes da exploração industrial, confrontando o modelo hollywoodiano. Apontam restrições quanto ao uso de técnicas e tecnologias nos filmes – e ético.

Para conhecermos bem um(a) diretor(a) de cinema é preciso assistir alguns de seus filmes. Assisti algumas vezes ao filme Educação e (uma vez) Um dia. Há delicadeza e precisão no desenho dos sentimentos femininos, soando profundamente verdadeiros, na direção da dinamarquesa. Ela é focada, humilde e despojada, centrada, e contribui tanto quanto as inovações e pirotecnias cinematográficas. A escolha dos elencos, nos dois filmes, foi primorosa - guardo uma ou duas cenas deles para um Álbum das Melhores Cenas do Cinema (coleção pessoal).

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras