Lonas azuis

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

168158

O circo existe há cinquenta séculos. Passou por diversas transformações, mas é a arte mais antiga do mundo. Resiste e se mantém vivo graças à criatividade e amor dos artistas. Da China, Egito, Grécia, Roma aos ingleses, que inventaram o picadeiro circular com um conjunto de atrações, chegou ao Brasil no século XIX, com as famílias de ciganos. Até hoje o circo, para jovens e velhos, tem o dom de voltar às lembranças da infância onde se mesclam risos e fantasias. Quem não se lembra do carro com alto- falante anunciando o circo que chegava à cidade? Todos saíam às ruas, o coração batendo de emoção, com aquela novidade que encantava as crianças e, também, os adultos.

Há muito o último circo tinha se despedido e a expectativa de ver os artistas se exibindo novamente era grande. Para anunciar o espetáculo caminhões percorriam as ruas com alguns dos animais que se apresentariam: leões, gorilas, ursos, bem fechados em jaulas, elefantes enfeitados puxados pelos domadores. Quanto mais bichos tinha o circo mais conceituado ele era. Os palhaços iam à frente, distribuindo folhetos que anunciavam o horário e as atrações principais. A meninada corria atrás do cortejo até ficar ofegante e corada.

Após todo aquele ritual de ficar na fila, comprar entrada, passar pelo porteiro, no horário do espetáculo, estávamos lá, sentados na arquibancada, aguardando o início da apresentação. Eis que surge o locutor com uma voz forte e instigante: respeitável público... Uma bandinha, com músicos uniformizados, tocava uma marchinha e com uma música característica dava um sinal para começar a sequência de equilibristas, palhaços, ilusionistas, malabaristas. Os domadores com seus bichos amestrados: cavalos que dançavam, macacos que andavam de triciclo, leões ferozes que subiam em banquinhos e mais a elegância dos trapezistas com suas roupas brilhantes e saltos mortais. Que emoção quando um palhaço subia a escada do trapézio e quando pensávamos que iria cair, ele nos surpreendia com uma habilidade incrível. Noites e tardes de sonhos, de muita vibração, numa época anterior à televisão e a toda tecnologia atual. Era pura emoção, alegria, inocência. Uma vez não bastava, íamos várias vezes e não cansávamos de ver o globo da morte, o incrível giro de motocicletas dentro de um globo de ferro. Barulho ensurdecedor e aplausos infinitos para a dupla que se apresentava. A montagem do circo era rápida. Uns dias antes da estreia, uma equipe chegava à cidade, tomava as providências legais e começava a fundação das estacas para armar as lonas. Elas escondiam uma magia que só quem as ultrapassasse poderia conhecê-la. É como se adentrássemos o paraíso. E se fossem lonas azuis deveriam ter sido feitas, mesmo, de um pedaço do céu.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras