A alma de barriga cheia

Por: Hélio França

Toda novidade sempre é muito mais bem-vinda do que algo rotineiro. Assim, apesar dos meus parcos conhecimentos gastronômicos, penso que não poderia ser diferente nesta área. Sabemos, por exemplo, que um arroz branco, nada mais é, na verdade, que um arroz branco. Porém, mudando a nomenclatura para arroz carreteiro, inclui-se no aludido prato a carne seca picada e outros temperos, transformando-o numa comida típica dos pampas gaúchos e conhecido também nas bandas de Mato Grosso do Sul. Poderíamos acrescentar inúmeras identidades ao famoso cereal tão consumido pelos brasileiros, tornando-o, para citar apenas algumas formas de fazê-lo, nobre risoto de camarão, passando pelo folclórico arroz de puta rica, até o seu reaproveitamento no simples e indefectível bolinho de arroz. Mas arroz à parte, quero mais é discorrer aqui sobre fato acontecido dia destes, num evento onde o prato principal do cardápio era um “porco à paraguaia”, literalmente.

Ora, o porco, íntimo do paladar tupiniquim, nas várias maneiras como o saboreamos, à pururuca, como pernil assado, em forma de lingüiça, etc., tornou-se tão brasileiro (leia-se mineiro) que consumi-lo “à paraguaia”, se para muitos é novidade, para nossos avós seria uma afronta aos costumes da boa e antiga roça.

Voltando ao evento, como atrativo para a venda das mesas anunciou-se que, durante a comilança, iria se apresentar no estabelecimento um conhecido artista de nossa região. Ingressos comprados, casa quase cheia, lá pelas tantas da noite estávamos a apreciar, não o porco, mas o violeiro, exímio músico aqui das nossas plagas, que se apresentava acompanhado de outros músicos não menos talentosos. A degustação musical pelos ouvidos foi sendo saboreada com tanto apetite que os estômagos ali presentes pareciam não se ressentir da falta do prato principal do evento.

Os clientes extasiados com o som extraído da viola, mal perceberam quando os garçons começaram a servir de mesa em mesa o esperado suíno à moda paraguaia. Mas bastaram alguns nacos na boca para verificar que a moda de viola tinha mais tempero, estava aquecida, e satisfazia mais, se não o estômago, a fome da alma de todos ali presentes.

Dizem os conhecedores, que o tal porco à paraguaia é assado lentamente sobre brasas, todo aberto, com os temperos por cima, e fica uma delícia. Sinceramente, deste não gostei, não porque a carne estivesse insossa e fria, mas prefiro a nossa boa e velha leitoa caipira, magrinha, pururucando, com limão china espremido por cima, arroz branco quentinho, um gole de cachaça de engenho, e lógico, a boa viola do Ronaldo Sabino, para temperar a vida !

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