Entrega

Por: Eny Miranda

Vinte e dois de abril é o Dia da Terra, dizem as letras coloridas.

Momento de versejá-la, diz o meu coração.

Ponho-me, então, a refletir sobre sua grandiosa e frágil beleza, sobre o sutil equilíbrio com que se mantém viva, suspensa no espaço, magnificamente azul.

Origem e destino de inúmeras vidas, esta vítrea esfera flutuante - em cuja superfície aflora, caprichosamente disposta entre muitas águas, delicada porcelana, dourada ao fogo do sol e ornada dos tons e subtons do verde e seus frutos - esta joia azul tem, como a palavra dos “poemas que esperam ser escritos”, “mil faces secretas sob a face neutra” - a que nos é imposta pelo hábito; a que vemos e dizemos, ordinariamente, através do vício do olhar e do falar denotativos - e é, como a poesia para o coração sensível, causa e consequência, agonia e êxtase, angústia e libertação.

Como verbalizá-la?

O universo que nos alberga paira muito acima do enunciável, desafia o que é simples verbo e simples verso, talvez porque reúna, em si, fim e princípio, poesia e palavra poética -ventura e desventura do poeta.

Existirá chave capaz de desvelar o que há por trás de sua neutra (e bela) face - palavra muda, “em estado de dicionário”? De desnudar seus mil segredos? E vocábulo capaz de dizer, deles, o indizível? De exprimir o inefável?

Entrego-me. Quebro invólucros, abro canais. Submeto-me ao que deste universo azul emana, em mistério e beleza. Deixo-me admirá-lo no silêncio de sua substância - ela mesma, silêncio primordial - até que minha entrega alcance o ápice, e entre nós a comunhão se estabeleça.

Então me calo. Meus versos são o silêncio deste momento breve: silêncio da epifania.

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