Gato e pássaro

Por: Lucileida Mara de Castro

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Eu era ainda criança e não conhecia Paul Klee. Por isso, a reprodução de sua pintura era apenas uma curiosidade moldurada e pendurada na parede.

Uma pergunta recorrente me passava pela cabeça quando eu fitava o quadro: por que um gato tão grande e um pássaro tão pequeno? Achava o gato cruel e o pássaro demasiado frágil.

Quando jovem, aprendi que deveria exercitar o meu olhar para reconhecer gatos e pássaros. Astúcia e leveza eram então, na minha ingênua filosofia, atributos que se estabeleciam para me condenar ou salvar. Se os reconhecesse, estaria salva.

Mas eu era ainda muito jovem para saber que reconhecer gatos e pássaros não bastaria, seja porque gatos podem ser leves e pássaros podem ser cruéis; ou ainda porque a beleza seduz e a alma enamorada não é capaz de discernir entre a felicidade e a tragédia. Eu também não sabia que, via de regra, o ser humano é triste e tanto é assim, que passa a vida procurando a felicidade. Quem procura aquilo que tem?

Meus passos andam por aí procurando cacos de liberdade, conchas de felicidade, retalhos de alegria. Vou sem pressa, olhos fitos no chão, atentos e também tímidos demais para se erguerem para a vastidão. Olho meu coração: o quanto valho? Não sei aferir. Sou pássaro miúdo fugindo apavorado das garras do destino. Enquanto fujo, colho flores, enfeito a mesa para o amor sonhado, para a derradeira ceia quando, enfim, gato e pássaro poderão comer juntos, sem medo, porque haverá a entrega e os instintos de posse estarão do lado de fora.

Venho colhendo flores pela vida afora. Tenho colares de flores brancas, vermelhas, amarelas, lilases, furta-cores. Guardo-os em baú encantado onde as flores não perdem o viço nem o perfume. Quando estou muito triste, triste de não ter mais jeito, abro meu reduto secreto, passo lentamente minhas mãos sobre elas, sinto-lhes a textura suave, fecho os meus olhos e desejo do fundo de meu coração não ter aberto minha alma ao expressionismo de Klee. Essa tristeza tamanha me faz crer que já não há Pasárgada e que ao final o gato devorará o pássaro, porque esse é o destino.

Quando por fim já quase desisto, uma única pétala que se desgarrou de um de meus colares de sonhos baila no ar, circunda meu medo, assopra minha dor, envolve-me por completo para tentar me fazer olhar para fora da escuridão até encontrar o sopro da esperança. De posse da esperança, espero e velo porque o caminho é longo, e triste, e belo.

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