Conversa de um só

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Destravo a manivela, solto o balde, ele desce velozmente até o fundo da minha cisterna de incertezas. Ouço o chuá, espero um pouco, e começo a fazer esforço. Rodo a manivela, o sarilho solta gemidos, enquanto a corda se enrola na trave de madeira.

Quando o balde alcança a boca luminosa, seguro-o pela haste, puxo-o, descanso-o sobre a tábua que tampa o buraco.

Enfio uma caneca no balde, ela volta com um gole de dúvida.

Enfrento-a.

- Você leu muito, por isso é uma pessoa culta?

- Pessoa culta, eu? Não, não. Cada vez, sei menos.

Outro gole, outra indagação.

- Alguma aprendizagem?

Acontece, acontece, sim. Mas só de quando em quando. E mínima.

A dúvida é curiosa, pergunta do sapato, do paletó.

- Roupas, bebidas, automóvel? Não, nada disso pesa muito. O que visto, o que calço, o que ingiro esclarecem quase nada.

- E o seu texto?

- O que escrevo? Ah, ilumina pouco, muito pouco. Menos que lâmpada pequena em poste fincado no último quarteirão da periferia.

- E o magistério?

- A minha aula ? Também é luz ínfima, só archote tremulando em meio à borrasca.

- E então...?

- Então ? Então o quê? É só isso. Todas essas coisas informam, mas são insuficientes, não revelam retrato pleno, não definem por inteiro a minha identidade. O que existe, de fato, além do esboço, eu não mostro. Nunca.

- Oculta por quê ?

- Por quê? Ora, porque tenho medo, tenho vergonha. Nunca me dispo completamente.

Chega, cansa-me esse diálogo de um só.

Despejo um balde de água na terra, olho para o céu. E fico à espera do nascimento de uma plantinha verde.

Ele virá. Sei que virá.

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