O fantástico aviso dos deuses

Por: Mauro Ferreira

Minha mãe vive na mesma casa, no centro da cidade e próxima à Santa Casa, há quase cinquenta anos. Quando vou visitá-la, arranjar estacionamento próximo é tarefa impossível. Dias atrás, o impossível aconteceu, havia uma vaga bem na sua calçada, diante dos porões da casa que um dia abrigaram a sede e a gibiteca da Prudentina, clube que meus leitores sabem, sou torcedor fanático.

Quando desci do carro, surgiu um senhor negro com uma bengala me estendendo um chapéu de palha. Pediu uma moeda, que eu não tinha. Ele me olhou fixamente e disse: “o senhor se parece com o Nelson Gonçalves, o cantor, conhece? Eu o vi num show em Presidente Prudente”. Respondi que sim, que conhecia o cantor (embora ache que não pareço nada com ele) e perguntei se ele era de Prudente.

Para meu espanto, o homem respondeu: “morei lá pouco tempo, eu era jogador de futebol da Prudentina”. Perguntei seu nome: “Sabará”. Nunca tinha ouvido falar. Mas imediatamente depois, sem ser perguntado, começou a citar os jogadores com quem tinha jogado, eram os meus ídolos: Ademar Pantera (o goleador que foi para o Palmeiras), Swing (o clássico meio-campista que jogou depois pelo Corinthians), Rubens Caetano, o goleiro Glauco. Pensei numa “pegadinha” destas da TV, mas não havia ninguém por perto. O homem sabia tudo da Prudentina, o nome do técnico, do presidente, dos jogadores, comentei que ele estava diante da sede da Prudentina em Franca (o porão). Embora não conhecesse nenhum Sabará jogando na época, pode ser que fosse um reserva. Ele confirmou, era zagueiro esquerdo reserva.

Por fim, perguntei se vivia em Franca. Ele me disse que não, que vive hoje em São Roque e viaja para evangelizar, me oferecendo um panfleto bíblico. Dito isso, despediu-se e se perdeu rapidamente na estrelada noite das três colinas. Ainda estupefato com o encontro, digno de Macondo e seu realismo fantástico, comentei com minha mãe o ocorrido. Ao saber que Sabará é hoje um evangelizador, ela me disse que talvez fosse um sinal de Deus para que retornasse à Santa Madre igreja. Pensando bem, acho que foi sim, um sinal dos deuses. Mas dos deuses do futebol, esses gozadores.

Quem diria que o nosso grande rival, o Corinthians, fosse eliminado do campeonato paulista pela Ponte Preta? E que as piadas corressem soltas, como aquela do telefonema: “é do campeonato paulista? O Corinthians está? Saiu, acabou de ser eliminado”.

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