Abrir o canto

Por: Maria Luiza Salomão

“Estará o envelhecimento encobrindo uma falta de força psíquica?”

Gilberto Safra, psicanalista.


“Abrir o canto” é expressão que ouvi de um passarinheiro. Há um momento em que o Passarim perde as penas e, por um tempo, para de cantar. Depois “abre o canto”.

No Amor deveria acontecer algo parecido. Mudar as penas que envelhecem no convívio e abrir o canto, com toda a força possível.

Como trabalhar o alongamento, a musculatura, a harmonia do canto amoroso? Olhar com as mãos, transar com o ouvido, reconhecer o aroma, sentir com a pele. Mil olhos podem nascer para o menor gesto, namorar por música, voar sem medo de quebrar as asas, de perder as penas, a voz...

Envelhecer não é adoecer, não equivale a perder a força psíquica. Talvez, gradativamente, perdemos a força física, não há como negar. Mas nem é a passagem do tempo que nos enfraquece, nem, contudo, nos amadurece a quantidade de anos vividos. É algo mais denso e entranhado.

Os conflitos mudam com a idade. Não dá para pular de uma etapa para a outra. Enquanto as penas mudam, algo deve ocorrer de dentro para fora.

As palavras se adoçam, quando amadurecemos. Decantamos, como vinhos nos tonéis de carvalho. Como uma roupa quarada ao sol, como os elementos químicos interagindo entre si, em afinidades eletivas.

Ficamos mais concentrados, para o bem e para o mal. As memórias que queremos guardar ficam mais fortes. E outras desaparecem, evaporam-se. A afinidade nos torna mais intensos com quem amamos, mas ralos e etéreos para aqueles que não nos impressiona particularmente.

Passamos mais tempo mudos, quietos, recolhidos. E, no repente, abrimos o coração, a alma. Abrimos o canto. Devagarinho vamos aprender a voar, não com o corpo, mas com a alma. Já vejo brotos de asas na minha. Um dia destes elas crescem e lá vou eu, fortona, de canto aberto...

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