Manhã de domingo

Por: Marina Garcia Garcia

A manhã fria de abril não me impediu de sair e caminhar. Tive a atenção atraída pelo rapaz que gritava e corria pela longa avenida. Os cabelos desleixados, maltrapilho, chinelo de dedo. Uma figura ímpar naquela nublada e triste manhã. Passou por mim como um corisco e o cheiro desagradável se espalhou no ar. Certamente, banho não tomava há dias. Nas mãos carregava alguma coisa que não consegui identificar. Logo me veio o sentimento de repulsa. O vulto desapareceu . Segui adiante.

Alguns quarteirões depois, vi que um grupo de adolescentes cercava o rapaz tentando tomar-lhe qualquer coisa. Aproximei-me e vi que atirava um pão em direção a um pardo cachorrinho que veio correndo receber o agrado.

Do outro lado da calçada, alguém começou a gritar com os jovens dispersando o grupo, não sem antes ouvir um punhado de desaforos.

Agora já o jovem agachado fazia carinho no animalzinho. Felizes, como duas crianças, brincavam sem se importar com o resto do mundo.

Três considerações pude fazer diante do episódio: a turba é realmente acéfala , como ainda existe tanta intolerância, e a pior: não fiz nada também.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras