Copas do Mundo - II

Por: Everton de Paula

Copa de 1978. O Brasil perdeu-a na Argentina. Interessante: aqui minhas memórias ficam um pouco embotadas, misturadas, nebulosas, embora tenha sido, talvez (e por isso mesmo), uma época repleta de acontecimentos. Preciso voltar a este assunto. O mais importante para mim o meu casamento, que perdura até hoje: 33 anos. Bodas de crizo, ou topázio. Esforço-me por lembrar outros eventos, e só me vêm à memória aulas, aulas e mais aulas, participação efetiva nas Semanas Euclidianas, artigos e dois livros didáticos publicados, excursões com os alunos, viagens para Rio, Ouro Preto, Campos de Jordão, Ubatuba no Paraná, Londrina. Acho que um diário individual deveria fazer parte de nossa cultura; onde acertei, onde errei, quem feri, como reparar, as principais lições... Nascimento de minha primeira filha, Thaís, em 1980. Intuição vinha forte: mudanças radicais no futuro. Karol Wojtyla é eleito Papa e adota o nome de João Paulo II, iniciando um dos pontificados mais longos de toda a história da Igreja Católica. É efetuado o lançamento do primeiro dos satélites que integraria o sistema GPS, sistema este que apenas em 1995 seria declarado totalmente operacional. Três anos após, a nave espacial Colúmbia faz seu primeiro vôo.

Copa de 1982. O Brasil perdeu-a na Espanha. Nascimento de minha segunda filha Lígia. Início de intensa atividade profissional na Unifran, que continua até hoje. Embora expressando diferentes fenômenos de um ponto de vista político, surge um movimento de associações de bairro (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, com pálidas manifestações no interior brasileiro) aliado a um novo sindicalismo de profissionais assalariados formas complementares encontradas por um segmento social para fazer valer o “mecanismo de voz” e multiplicar canais de participação política saturados pelo oligopólio partidário. Avanço da classe média. Viagens profissionais e início de estudos para a transformação da Unifran em universidade. Intensa atividade jornalística. Argentina invade as Ilhas Malvinas e começa a guerra entre Argentina e a Grã-Bretanha.

Copa de 1986. O Brasil perdeu-a no México. A terceira filha, Cíntia, nascera dois anos antes. Já constituíamos uma família feliz, barulhenta, risonha, musical. Quando terminávamos uma festa de aniversário, já estávamos preparando a próxima. Época da Polaroide. Nada ainda de máquinas digitais, imagens HD, celulares. Os jogos eletrônicos principiavam timidamente a surgir na tela da televisão. Comprei um Dodge 8 cilindros, verde de capota bordô. Minha mulher detestava-o: “É uma lancha que tenho de manobrar no centro da cidade!”, dizia ela. Acidente nuclear de Chernobil, na Ucrânia. Passou a ser considerado o pior acidente nuclear de sempre. Morreram mais de 4 mil pessoas. São transportadas para o espaço as primeiras estruturas da estação espacial MIR. A então Comunidade Econômica Europeia ganha força e importância mundial.

Copa de 1990. O Brasil perdeu-a na Itália. Aulas no curso de Letras, chefia de Departamento na Unifran, publicação de livros e artigos. As filhas crescendo e os namorados rondando, sob meus olhares de pai ranzinza. Fase de muita produção intelectual, publicação de livros, redação no Comércio da Franca. Ayrton Senna conquista, em 91, o título de tricampeão mundial na Fórmula 1. Estados Unidos invadem o Iraque e tem início a Guerra no Golfo. Nelson Mandela ganha o Prêmio Nobel da Paz.

Copa de 1994. Agora sim Brasil tetracampeão nos Estados Unidos. A dupla infernal Bebeto e Romário lembram-se? Dois anos antes nasce minha quarta filha, Júlia. Pela primeira vez, a reconfortante sensação de habitar a casa própria. Princípio de mudanças tecnológicas com prenúncios de avanços que mais pareciam filmes de ficção científica. Globalização, informatização. As primeiras vozes para as eleições diretas já se faziam ouvir no Brasil. Morre Ayrton Senna. Morre o compositor Ronaldo Bôscoli.

Copa de 1998. O Brasil perdeu-a na França. O que parecia ficção científica tornou-se realidade na tecnologia e informática. Como passou a ser realidade a cobrança que a competitividade profissional exercia sobre todos nós. Unifran já conquistara o status de Universidade de Franca. Defendo minha dissertação de Mestrado: três óticas distintas sobre a guerra de Canudos (a da República, a dos sertanejos e a de Antonio Conselheiro). Ocupo, honrosamente, o cargo de Pró-Reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão, mais tarde desmembrado. Quanto mais avançávamos em idade, mais se exigia que fôssemos jovens, atuantes, criativos, prestativos, proativos... Viagem para a África do Sul. Viagem para Moçambique. Mudança de comportamento social à luz de novos procedimentos diante de um mundo já globalizado, informatizado, competitivo. Comunicação rápida, ágil. Não valia mais a persistência, mas a velocidade. Surgimento do Q.E. (Coeficiente Emocional) predominando sobre o Q.I. (Coeficiente Intelectual). 1998 foi marcado pelo escritor Zuenir Ventura como O ano que não terminou: Pinochet é preso na Inglaterra, surgem mudanças climáticas, proibição do cigarro em recintos fechados, caso Monica Lewinsky e Bill Clinton, presença mundial de Osama Bin Laden, surgimento do Viagra, moedas do Euro entram em circulação, monopólio da Microsoft, crise de desarmamento no Iraque e Saddam Hussein, Sergey Brine e Larry Page fundam o Google.

(Termina no próximo sábado).

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