Precisamos falar sobre o Kevin

Por: Sônia Machiavelli

169677

A autora do romance Precisamos falar sobre o Kevin, que serviu de inspiração ao filme homônimo, chama-se Lionel Shivrer, é norte-americana, mora em Londres e ganhou com seu oitavo livro uma láurea importante, o Orange Prize. Shivrer esteve no Brasil em 2010, participando da Flip, ocasião em que contou como sua história foi recusada por vinte agentes literários nos EUA, até que uma antiga editora aceitou publicá-la. A razão de tantas recusas certamente tem a ver com a história do protagonista, autor de uma chacina no colégio que frequentava. É provável que esta chaga, aberta desde Columbine, torne difícil aos americanos a leitura do livro e a apreciação do filme. Na Flip, na mesa que dividiu com a brasileira Patrícia Mello, Shriver disse, respondendo a uma repórter, que a reação de mães raivosas à sua obra foi bem menor que o retorno obtido de outras que “ estavam gratas em ver a maternidade desromantizada em uma história de ficção.”

O livro, de gênero epistolar, escrito sob forma de cartas de uma mãe a um pai ausente, brilha pela fina percepção de que há coisas, no nível dos comportamentos humanos, das quais não temos qualquer certeza quanto às razões. O filme, da diretora escocesa Lynne Ramsay, sucinto no enredo quando cotejado com o livro, teve edição primorosa que resultou em quebra cabeça cujas partes vão sendo fornecidas ao espectador em doses homeopáticas.

O filme começa com Eva Khatchadourian ( Tilda Swindon) em sua casa de pequena cidade do interior americano. Já nos primeiros minutos a percebemos deprimida e solitária, com um corpo esquálido que não sabemos como se mantém de pé. Torna-se evidente que é hostilizada pela comunidade. Aos poucos, por meio de flashbacks, vamos cosendo os fragmentos que conferem sentido pleno à história, cujo desfecho é um soco no estômago e cujo final arde como sal em ferida.

Através de flashes ficamos sabendo que Eva, antes de seu casamento com Franklin (John Reylli), era mulher bem resolvida em seu trabalho com mapas turísticos. Seu perfil pode ser entrevisto na cena inicial, que focaliza uma tomatina, a festa espanhola onde as pessoas se atiram tomates até que tudo vira lama vermelha. Depois a seguimos na sua dúvida em se tornar mãe, porque, afinal, tem consciência de que não leva jeito para a coisa. Mas o marido, por quem está apaixonada, deseja o filho. Ela cede, nasce Kevin. A relação entre mãe e filho é marcada pela angústia desde o parto. A frase com que a obstetra adverte a parturiente pode soar como prenúncio do que está por vir: “você está oferecendo resistência à saída do bebê; não resista, Eva...”

Mas pode ser que não resida somente aí algum nó górdio indestrincável. Afinal, Eva se mostra mãe preocupada o tempo todo com o bebê que chora muito, custa a deixar as fraldas, demora para falar, não interage nas brincadeiras, ou, de repente, surpreende contando números numa sequência impressionante, trocando -se sozinho, realizando atividades consideradas até então improváveis para sua idade. Entre mais opacidades que desvelamentos desdobra-se a relação entre Eva e Kevin, tornando flagrante a falta de empatia que ela procura reverter. Com o pai, Kevin mostra-se gentil, o que leva a mãe a se inquietar ainda mais: seu filho seria um manipulador? O nascimento da dócil Celie vem intensificar a acidez desta relação, uma vez que a menina é o oposto de Kevin. Ao chegar à adolescência, este terá feito muitas vítimas, entre elas a própria irmã.

O sofrimento de Eva não concede tréguas e é a um momento de extrema preocupação que se refere o título do livro/filme: “ Precisamos falar sobre o Kevin” é uma das falas que Eva dirige a Franklin, ingênuo ou seduzido demais pelo próprio filho para enxergar nele o que a mãe via. Ao se negar a encarar a realidade, o pai parece ajudar a alimentar o monstro que se revelará com toda sua carga homicida numa clara manhã de primavera.

Nas cenas que abrem e fecham o filme, uma cortina de voal na sala da família filtra a luz e, tocada pelo vento, lembra uma vela panda. Nesta imagem a diretora embutiu brilhante metáfora. Sempre haverá o que descortinamos e o que não conseguimos descortinar, apesar do movimento. Isso traz para o espaço dos questionamentos os limites da intervenção dos pais. Às vezes a cegueira impede a ação. Em outras a coragem é insuficiente. O epílogo, que aponta para uma terceira direção, responde aos que defendem a tese psicanalítica, pela qual a recusa de Eva à maternidade funda as bases da loucura em que mergulha o filho e, em consequência, da culpa que consome, dilacera e aniquila a mãe.

Por outro lado, se a narrativa não traz em si conotações religiosas, nada impede ver nesta Eva de nome emblemático, uma analogia bíblica com a mãe de Caim. O mal tem muitos nomes e é assunto sempre indigesto, do qual não deveríamos fugir. Precisamos falar mais sobre Kevin, e sobre a mãe de Kevin, para, entre outras coisas, entender que ser mãe, em muitos casos, é padecer sem paraíso.


CINEMA E REFLEXÃO

Lynne Ramsay

Lynne Ramsay é uma diretora de cinema com formação na National Film and Television School, de Londres. Nascida em 1969 em Glasgow, na Escócia, manifestou cedo sua vocação para as artes. É casada com o músico Rory Kinnear.

O cinema de Lynne não é entretenimento. Sua filmografia torna evidente seu gosto pela fragmentação e pelo estranhamento. Seu primeiro longa, Ratcatcher, data de 1999. Mostra uma greve de lixeiros no começo de 1970, atrelada a um assassinato. No segundo trabalho, Morvern Callar, nome da protagonista, jovem escritor se mata e deixa prontinho um romance que desejaria publicar. Morvern, a namorada que encontra o corpo e os originais, sem o menor pudor publica o livro como seu e vai comemorar o sucesso.

Se nestes dois filmes a morte é o ponto de partida para que a ação se desenrole, no livro resenhado ao lado a morte é ponto de chegada, a partir do qual o espectador será inteirado do que sucedeu até que a carnificina se consumasse e levasse Kevin para a prisão e a mãe para o inferno da culpa.

Quando o livro de Shivrer começou a fazer sucesso, Lynne quis levar a história para a tela, sendo contestada pela escritora que não via possibilidades de sucesso na empreitada. Na estreia, esta reconheceu publicamente que se enganara e que a diretora havia transposto com perfeição a linguagem literária para a cinematográfica.

Colaboraram para o êxito a fotografia que alterna amarelos e vermelhos; a trilha sonora com música antigas, especialmente Mother´s last word to her son, e, claro, a pungente interpretação de Tilda Swindon, que hipnotiza o espectador como a mãe atormentada e sem saída. (SM)


Serviço
Título: Precisamos falar sobre o Kevin
Gênero: drama psicológico
Diretora: Lynne Ramsay
Duração: 112 minutos
Ano: 2010
Onde encontrar: nas locadoras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras