O pombo

Por: José Borges da Silva

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Um pombo esfarrapado, manquitolando, por falta de uma das patas, come avidamente os restos de salgadinhos quebrados e esparramados pelo chão, ao lado da porta de embarque. Uma adolescente, com cara de nojo, espanta-o com um pontapé que o atinge apenas de raspão, porque se aproximou demais de sua mochila atirada ao lado da porta. A maioria dos adultos à volta, igualmente aguardando o ônibus, tacitamente aprova o gesto da mocinha com seus olhares indiferentes. Mas, um garotinho de uns três ou quatro anos, no máximo, se aproxima e, resoluto, toma partido na questão. Não diz nada, nem olha pra nenhuma das pessoas. Por um breve instante olha para pombo que, meio desconfiado, afasta alguns passos e fica em posição de fuga, tentando apanhar algumas migalhas que ainda estão ao seu alcance. E então o menino, evitando movimentos bruscos, retira de um saquinho de cor metálica e reluzente um punhado de salgadinhos de milho e os despeja cuidadosamente no chão, num ponto eqüidistante em relação ao grupo de passageiros. E ainda calmamente dá alguns passos e se posiciona a certa distância, guardando a refeição da miserável ave. A maioria dos olhares, que antes aprovaram a tentativa da adolescente, agora busca se distrair com outros assuntos do movimentado terminal rodoviário, como quem tenta absorver uma implacável derrota. Outros, mais amenos, disfarçam certo prazer contido. E outros ainda, mais explícitos, saboreiam a vitória com um claro sorriso. Nenhuma intervenção mais na questão. Até mesmo um guarda municipal que passa, ao perceber a cena realiza um leve desvio no seu trajeto para não interferir. Um imenso relógio suspenso desde o teto, silencioso, assinala dezoito horas.

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