O grito

Por: Chiachiri Filho

Confesso que dei um sonoro grito ao saber que um quadro pintado por E. Munch foi leiloado por 123 milhões de dólares. É muito dinheiro, não é mesmo? É uma quantia extraordinária. Se o quadro fosse vendido por 1 milhão de dólares, eu já ficaria muito surpreso. Mas, 123 milhões...!!!

Sem dúvida, há muita gente rica nesse mundo. Há muito dinheiro nas mãos de poucas pessoas. Há fortunas incalculáveis, inimagináveis, extratosféricas. Fortunas que nascem do dia para noite ou, então , que se formam ao longo de séculos.

Quase sempre desconhecemos os possuidores dos grandes capitais. Vivem na sombra, no anonimato, em seus esconderijos de ouro, diamantes e dólares. Contudo, são eles que decidem sobre os rumos do mundo e os destinos de nossas vidas. São eles que fazem as bolsas de valores oscilarem, que aumentam ou diminuem os preços, que nos condenam à miséria ou melhoram o nosso nível de vida.

Um desses milionários ( talvez não tão rico porque quer aparecer e os podres de rico não se mostram nunca ) quer construir uma réplica idêntica do Titanic para percorrer o mesmo trajeto ( sem o Iceberg, é claro ! ). Outro grupo de milionários ( mais objetivo ) está querendo aplicar seu dinheiro no turismo espacial ou, então, num projeto de mineração nos asteróides. Portanto, o dinheiro está sobrando. Não sobra para os miseráveis da África, para os favelados do Brasil, para os desempregados espanhóis, norte-americanos e gregos. O dinheiro sobra nas mãos dos poderosos que o investem no que quiserem e quando assim o desejarem.

Investem em automóveis, aviões, iates, mansões. Investem nas guerras e nos artefatos bélicos ou, sendo mais sensíveis e humanos, em quadros como de Picasso , Goya, Dali e n´O Grito de Munch, pintor expressionista norueguês que conseguiu passar para a tela a angústia, a dor, o desespero dos homens e da própria natureza. Quem viu o quadro, diz que ele é sufocante, apavorante, um verdadeiro convite ao suicídio. Porém, quem o comprou , certamente, não correrá esse risco. Quem pagou 123 milhões de dólares não estará, evidentemente, pensando na morte, nas chamas do inferno, nas misérias da vida. Quem despendeu tamanha soma de dinheiro, deverá ter muito mais coisas a fazer do que ficar olhando para a tela de Munch.

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