O barbeiro

Por: José Borges da Silva

Visitar o barbeiro, além de ato de cuidado com a aparência, para boa parte dos homens da minha geração se constitui numa forma de interação com os amigos, num meio de atualização sobre assuntos de um círculo mais restrito. Aliás, conforme tem revelado o Luiz Cruz, parece que ocorre o mesmo no salão de cabeleireiro. O barbeiro, que também corta cabelos, é uma profissão em franca extinção, porque vem sendo substituído pelos cabeleireiros e por outros profissionais polivalentes. Aprendi a admirar essa profissão ainda criança, porque o meu pai foi barbeiro na roça. Eu gostava de assistir ao seu trabalho metódico de limpar e esterilizar os instrumentos. Achava extraordinário o modo de afiar a navalha, esfregando-a pra lá e pra cá num grosso tacão de couro. Ainda me lembro do quanto parecia moderno o estojo de barbeiro: um par de tesouras finas; a navalha reluzente; um pote de louça revestido de alumínio para fazer espuma; o pincel de cabo bojudo, cujas cerdas diziam ser de crina de cavalo; uma bomba inoxidável parecida com uma chaleira, com longo tubo de borracha e uma bolota na ponta, usada para aspergir água; a máquina manual de cortar cabelosà E os produtos de higiene? Talco aromático, álcool, loção perfumada, creme de barbear...

Desde então, ir ao barbeiro passou a ser para mim como que participar de ritual.

Com a morte prematura do meu pai, um tio passou a “quebrar o nosso galho”, meu e dos meus irmãos, todos ainda meninos, fazendo “trilhos de ratos” nas nossas cabeças ao cortar nossos cabelos sem a devida perícia. Quando cheguei à adolescência, já morando em Franca e empregado há algum tempo, voltei a visitar o barbeiro. Ia ao estabelecimento de um senhor sisudo lá no fim da Avenida Presidente Vargas, que ficava próximo da Avenida Brasil e nem tinha asfalto ainda. O barbeiro não perguntava que tipo de corte eu queria. Garotos só cortavam no estilo americano, raspado à volta, deixando uma espécie de cuia no alto da cabeça. Como era tempo de Beatles, eu não queria mais os cabelos raspados na nuca. O barbeiro, porém, não gostava da nova moda e menos ainda das minhas objeções ao seu trabalho. Mas, depois de muito insistir ele passou a me perguntar, com voz grave, quando eu chegava: você os quer aparados ou rebaixados? Eu respondia: aparados, na esperança de que ele os deixasse mais cheios, para crescerem de modo uniforme. Mas ele fazia sempre o corte que sabia: o americano, raspado na nuca e à volta das orelhas, bem ao contrário do estilo Beatlesà

Desde o tempo do meu pai havia o costume de o sujeito visitar sempre o mesmo barbeiro. Em tempos mais recentes, por vários anos visitei a barbearia do amigo Ênio, também situada na Avenida Presidente Vargas, perto da Justiça Federal. Hoje em dia, porém, a fidelidade acabou, sucumbiu a fatores como o tempo, a possibilidade de estacionamento, etc. Por isso, vou com mais freqüência ao salão do Toni, próximo do Fórum. Muito raramente visito o salão do Solico, perto da Igreja de Santa Rita, amigo e primo de meu pai. Em qualquer deles a escolha do corte já não é problema, porque todos têm repertório vasto e atenderiam a qualquer pedido, inclusive aquele meu da adolescênciaà Bem, especificamente esse corte talvez nem fosse mais possível, porque o tempo muda as coisas, enfim, mas isso não vem ao casoà Mas, sempre que posso participo do ritual, que continua o mesmo: ouvir a piada do dia, receber notícias dos amigos, falar de futebol, debater as questões políticas do momento. As únicas coisas chatas são as notícias que incluem, amiúde, o “passamento” de algum amigo. E os fatos políticos também, que sempre tratam de corrupção...

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