A pianista

Por: Mauro Ferreira

Margarida Pucci (ou Margô, como prefere minha cunhada Regina) é uma daquelas pessoas admiráveis que conseguem ouvir o inaudível. Tenho certeza de que ela é capaz de transformar em música dodecafônica a sinfonia dos carros, buzinas e vozes dissonantes que passam na calçada de sua casa. Professora e pianista, aluna de Bassano Vaccarini e Pedro Manoel Gismondi no curso de artes da UNAERP em Ribeirão Preto, foi fiel escudeira do maestro Barros Garboggini na orquestra de Franca, nos anos 70. Para um roqueiro ensurdecido e analfabeto musical como eu, que embora tenha tido oportunidade de estudar piano e mesmo assim nunca tenha conseguido distinguir um sustenido de um bemol, o ouvido musical de pessoas como Margarida é um mistério.

A música dita clássica é pouco ouvida. Não tocam nas rádios e nas TVs abertas, especializadas em sertanejos, raps, funks, bate-estacas eletrônicos e outras opções menos votadas. Para ser tocada, geralmente esta música precisa de muita gente bem preparada junta (orquestras), instrumentos e maestros primas-donas que custam caro, locais adequados e, por isso, enfrenta condições difíceis para se sustentar e sobreviver. Nenhuma destas dificuldades afastou Margarida e alguns outros abnegados do caminho da música que escolheram. Melhor diria, foram por ela escolhidos.

Mas a boa música, dita clássica ou não, toca a todos os humanos. Que o diga a própria Margarida. Certa época, ela ensinava piano em sua casa e também ensaiava sozinha. Ao lado, começaram a erguer um prédio, destes de que a cidade vai se enchendo por todos os lados. Ao mesmo tempo em que se ouvia o barulho dos bate-estacas, dos guinchos dos elevadores de serviço, do agônico rugir da serra circular, do aço sendo dobrado, dos tijolos que se empilhavam, das furadeiras elétricas, impunha-se de repente na tarde enevoada de um típico e frio junho francano, uma cantata, prelúdio ou fuga de Bach, que sei eu? Era Jesus, Alegria dos Homens.

No estranho e obsequioso silêncio que às vezes, de repente, as ruas e as obras de construção têm, alçava-se imponente e insólito o som bachiano no teclado, de tempos imemoriais. E assim era, dia após dia.

Em julho daquele ano, Margô saiu em férias, foi visitar parentes distantes, foi a Campos do Jordão ver o Festival de Inverno e só depois voltou, já no final do mês. Ao chegar, seu pai contou do inusitado ocorrido. Fora visitado por uma comissão de pedreiros e peões da obra vizinha, que ameaçavam fazer uma greve. Mas não era nada sobre o salário pago pela empreiteira da obra, apenas exigiam e queriam saber: cadê a pianista? Quando ela vai voltar e iluminar o canteiro de obras com uma magnífica fuga de Bach?

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