O trem

Por: Maria Luiza Salomão

170478

Acabo de ver meu avô em um túnel do tempo, quando ele era chefe de estação da Alta Mogiana. O trem foi apitando, virou na curva e sumiu...

Nos trilhos do animal resfolegante, eu me embalo suavemente, no útero agitado da mãe-locomotiva. Ele apita silvos, longos e curtos, nas curvas e nas estações. Quem quiser sai, quem puder entra, quem conseguir deve me alcançar. Ele vai atravessando pontes, e recolhendo gentes. Vão passando estepes, vales, colinas, lagos, rios, montanhas, o mar ao longe, florestas, cerrados, veredas, palmeiras, campos cultivados, campos floridos, gentes com enxada, abanando as mãos. Casinhas vão ficando lá longe... Vacas, cabras, cachorros correndo, latindo ferozes, sem qualquer chance de me assustar. Velhos cochilando nas estações me enternecem. Mulheres arrumadas esperando o trem passar quase me deixam tristes. Eu acho graça dos homens vigiando as mulheres. Gentes anônimas descendo e subindo dos vagões bem e mal vestidos, carrancudos ou eufóricos. São muitos os lugares de parada, e confusos os dinâmicos tempos rememorados.

(nem sempre conheço todas as estações por onde o Trem passa, nem registro os tempos de forma precisa)

Do Trem eu vejo as mesmíssimas paisagens, coloridas pelas emoções de momentos diferentemente significativos - paisagens tristes, alegres, cenas familiares, cenários desconhecidos e intrigantes.

Êta trem doido, a Vida que não para de se louco-mover! Quem tem Alma para ficar se transportando através de lugares mutantes e em estáticos tempos?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras