Copas do Mundo - Final

Por: Everton de Paula

Copa de 2002: Brasil, pentacampeão na Copa do Mundo realizada na Coreia do Sul e no Japão. Por coincidência ou não, todo ano de eleição presidencial no Brasil é também de Copa do Mundo. Em 2002, as eleições colocaram no Planalto, em Brasília, pela primeira vez na história do país, um presidente com nível baixo de escolaridade: Luiz Inácio Lula da Silva, que ficaria no poder até 2006, quando seria reeleito. Mas nem tudo em 2002 foram futebol e política. Vários acontecimentos marcaram a época: epidemia de dengue, aumento assustador da violência urbana, assassinato do prefeito de Santo André, assassinato brutal do jornalista Tim Lopes e do casal Richtofen, em São Paulo. Violência também no cenário mundial, como o assassinato de mais de 80 russos por rebeldes chechenos num teatro de Moscou. Expulsão do regime talibã no Afeganistão, sequência à guerra contra o terrorismo e, na TV brasileira, com a febre dos reality shows, o lançamento do Big Brother Brasil pela Rede Globo de TV. Para minha profunda tristeza, perco meu pai no dia 6 de setembro.

Copa de 2006: o Brasil perde a Copa deste ano na Alemanha. Itália torna-se tricampeã mundial de futebol. Os acontecimentos marcantes: o Irã retira os selos colocados pela ONU em vários centros de pesquisa nuclear, provocando uma crise internacional. A tendência do esquerdismo na América espanhola torna-se predominante. Cerca de mil pessoas morrem em naufrágio no mar Vermelho e seis mil morrem em terremoto em Java. A rede terrorista no Oriente Médio começa a perder seus líderes, caçados pelos norte-americanos. Fidel Castro delega o poder sobre Cuba ao seu irmão, Raúl de Castro, por problemas de saúde. Saddam Hussein é condenado à morte por forca pelo Alto Tribunal Iraquiano. Morre Augusto Pinochet. Em um discurso numa universidade alemã, na Baviera, o papa Bento 16 faz críticas implícitas ao islã e ao profeta Maomé, ligando-os à violência; causou indignação, Bento 16 lamentou a polêmica, mas não pediu desculpas. Violência urbana cresce no Brasil, assim como a corrupção em Brasília. Lula se reelege entre escândalos e usurpadores petistas, como o caso dos dólares na cueca de um deputado. Morre o humorista Bussunda durante a Copa do Mundo na Alemanha.

Copa de 2010: o Brasil perde a Copa na África do Sul, vencida pela seleção espanhola. O Brasil é escolhido sede da Copa do Mundo de 2014. Tsunami no Japão deixa 25 mil vítimas. No Rio de Janeiro, deslizamentos matam quase mil pessoas. Primavera árabe leva à revolução civil quatro países. Morre Bin Laden. Sete ministros deixam o governo Dilma após denúncias. Corínthians é campeão brasileiro na última rodada e o Santos torna-se bicampeão paulista. Revelação de Neymar (e a Francana perdendo, perdendo na terceira divisão do futebol paulista...) Triste início de queda do basquetebol francano. Morre Steve Jobs. Lula faz quimioterapia para câncer na laringe. Estoura crise econômica severa na Europa. Brasil torna-se a 6ª potência mundial, revelada pelo PIB. Novo baque em minha família: morre meu irmão mais velho vitimado por câncer. Mas nem tudo é tristeza: nesse período casam-se três de minhas meninas: Thais, Lígia e Cíntia. Dois anos após, nasce meu primeiro neto, filho de Thaís. E Lígia, a segunda de minhas filhas, engravida. Novo alento.

................................

É isto.

Não quis falar sobre as copas do mundo. Se o leitor estiver lembrado, fiz referência à minha intenção primeira: relacionar certos acontecimentos que trago na memória a partir da indicação do ano de realização de uma copa do mundo. Não sei explicar o fenômeno; sei apenas que a partir da copa de 1958 até a de 2010 (14 copas do mundo realizadas ao longo de 56 anos) consigo estas relações.

Não há como resumir nem comparar épocas.

Certa vez perguntei-me à moda de Machado de Assis: “Mudaram os tempos ou mudei eu?” Respondo apenas que fui “testemunha ocular” de transformações fantásticas no âmbito de usos e costumes civilizados ou não, no campo da tecnologia, na área da educação e no modo de as pessoas se espiritualizarem sem se posicionar numa única religião. Tudo mudou. Não apenas o leite se pasteurizou, ou a TV tornou-se em cores e plasma, os carros nacionais deixaram de ser “carroças”, a união homoafetiva tornou-se ato de fato e de direito, surgiram novos preconceitos e regras contra... Não apenas isto. Volto-me à realidade e me entristeço quando constato a inversão de valores morais, éticos... Mas basta dar meia-volta, encarar o sorriso de meu neto e obter a certeza transcendental de que meus olhos cansados, uma espécie de sensação de tédio que antes invadia minha alma sofre agora um tsunami de amor e esperança... Esperança de que a vida continua com todas as possibilidades de mudanças e quebras de paradigmas. Que bom que seja assim, pois assim o homem saiu das cavernas e mergulhou no Google.

Até à Copa do Mundo de 2014... Se os nossos estádios estiverem prontos... e os metrôs... e os aeroportos... e a infraestrutura física... e a locomoção urbana de pessoas... e a saúde pública melhorado... e a educação avançado... e...

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras