Um filme edulcorado mas esperançoso

Por: Sônia Machiavelli

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Um sonho possível é um filme norte-americano baseado no livro The Blind Side: Evolution of a Game, de Michael Lewis, jornalista especializado em economia, que alcançou fama ao se dedicar, aos 50 anos, a escrever histórias sobre o lado negro do mundo das finanças e fábulas sociais do mundo dos esportes. Blind Side pertence a este último gênero.

Inspirado num caso real, cujos protagonistas conheceu por acaso numa de suas reportagens, Lewis construiu uma narrativa sóbria, mas comovente, a respeito de superação. Sua história foca um jovem americano negro, miserável, com deficiências cognitivas e de comunicação, que encontra uma família de classe média alta que o acolhe, trata-o como filho e lhe dá estímulo e suporte para se desenvolver como esportista e ser humano. Não existisse um fato real diríamos que o escritor exagerou na ficção. E que o cineasta o fez mais ainda.

Ao transpor a história para a tela, o roteirista e diretor John Lee Hannock abusou das licenças poéticas e construiu um filme onde a família adotante ficou perfeita demais . Isso depõe contra o mínimo princípio de verossimilhança. As imagens mostradas desde o início inserem os Tuohy num recorte quase idílico na cidade do interior americano. Torna-se um tanto difícil acreditar na forma tão perfeita como eles convivem, sem o mínimo sinal de conflito: gente bonita, feliz, sem problemas com dinheiro, morando em bela casa, respeitada em seu meio, bem sucedida profissionalmente. E ainda por cima, muito magra! Verdadeiro comercial de margarina.

Mas, feito o reparo, a principal proposta da história contada por Lewis e filmada por Hancock não foi bem mostrar esta família por quem o público se apaixona de imediato. E que fez Sandra Bullock levar um Oscar pelo papel de Leigh Anne Tuohy, mulher decidida que desempenha função catalisadora em todo o processo pelo qual passará Big Mike (Quinton Aaron) até se tornar um ídolo e entrar na universidade. O objetivo, parece, foi mostrar com certa leveza o lado de pouca luz, o lado cego, the blind side. Daí o nome do livro e filme.

E por aí se perdeu totalmente o tradutor que fez a versão para o português com seu equivocado título Um sonho possível, que não corresponde ao que escreveu Lewis e filmou Hannock. Lado cego: este é o espirito da história desvelada na metáfora perfeita, escolhida para titular livro e filme na versão original. Lado cego porque Big Mike, que prefere ser chamado Michael Oher, não se enxerga em suas potencialidades, até ser adotado pelos Tuohy, e mesmo muito depois, pois tem de vencer seus bloqueios. Lado cego porque há o lugar miserável de onde ele vem e que não é olhado com cuidado pela comunidade. Lado cego principalmente porque esse é o nome, no futebol americano, de uma situação onde o jogador deve proteger o quaterback, o atirador de bolas. Quanto maior o porte físico do atleta que atua nesta função, melhor será o seu desempenho. Mike tem este porte, é um jovem grande e forte, de braços e pernas imensos. E é dotado de um instinto de proteção muito desenvolvido, de acordo com as primeiras informações que recebemos sobre ele via professores da escola que passa a frequentar. Deficiente em quase todas as matérias, demonstra aos poucos grande talento para o futebol americano. Pode não ser sequer sofrível em língua, matemática, geografia e história; e precisará de muitas aulas particulares para atingir o mínimo desejável. Mas seu corpo forte e ágil bloqueia qualquer pessoa que tente chegar perto de seu quaterback. É uma grande vantagem da qual ele consegue muito lentamente se conscientizar e trabalhar a seu favor. Por aí ele se salva, integrando os quadros do time local.

A lição que fica é a de que vale a pena enfrentar os próprios medos, os explícitos e os latentes. Também identificar e aproveitar as oportunidades que podem surgir na vida sempre cheia de surpresas.

Em tempo: não desligue o DVD quando chegar a hora dos créditos, pois eles se fazem acompanhar de fotos e vídeos das duas famílias, a verídica, que inspirou Lewis, e a ficcional, que mobiliza as emoções do espectador. Ao vê-las justapostas na telona a gente passa a acreditar que a ficção pode expressar realidades e a vida pode ter seus lados brilhantes, com gente boa e generosa. Como não?


BLOCKBUSTER

John Lee Hancock

Nascido no Texas em 1956, numa família de esportistas, onde dois irmãos se tornaram craques no hockey, Hancock cursou Direito e Língua em Waco. A vocação para o cinema, porém, o afastou dos meios jurídicos. Começou fazendo roteiros para filmes classe C, depois entrou em projetos pessoais. Desafio do destino, Um mundo perfeito, Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal e Bad Boys foram filmes sem expressão, com pouca repercussão junto ao público. Mas em 2004 O Álamo, um remake, ganhou visibilidade.

A inspiração para filmar The Blind Side surgiu assim que fechou a última página do livro de Michael Lewis. Batalhou muito para conseguir recursos financeiros e humanos a fim de contar a história interessante com elenco consistente. Os nomes de Quinton Aaron (Big Mike), Tim McGraw ( Sean, o marido de Leigh Anne), Kathy Bates ( Miss Sue, a professora particular), Lily Collins ( a filha adolescente) foram aprovados de imediato. Restava achar o garoto engraçado e inteligente, S.J, filho caçula do casal. A escolha perfeita recaiu sobre Jae Head, que dá um show de interpretação. Restava esperar que Julia Roberts aceitasse dar vida a Leigh, mas ela recusou. Sorte de Sandra Bullock, que ganhou um papel sob medida para sua simpatia. E o sucesso do filme, indicado a muitos prêmios, deve-se muito ao seu desempenho. Por ele a atriz levou um Oscar.

Lançado em 2009 nos EUA e Canadá, o filme desbancou Lua Nova e pagou-se nos três primeiros meses de exibição. Surpreendente blockbuster, mostrou que o público continua gostando de histórias de superação. Talvez porque elas falem ao coração de todos.


Serviço
Título: Um sonho possível
Diretor e roteirista: John Lee Hancock
Ano: 2009
Gênero: drama
Onde encontrar: nas locadoras.
Prêmios: Oscar e Globo de Ouro por melhor atriz
 

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