Quem é você?

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Quem é você que passa pela vida e nada vê?

Que conversa com ninguém e sem esperar por resposta alguma, prossegue falando e falando e falando...E fala do nada e fala do tudo, embaralha, desembaralha... Será que ouve a resposta que não vem ou você mesmo a responde sem o saber que é você? Que roupa é essa que já faz parte de seu corpo, tanto tempo a colocou? Essa roupa, que está tão impregnada de você... É a sua pele... Tem o seu cheiro. O seu “mau cheiro” para o mundo que

você não vê... E não o vê.

Seu cabelo por cortar, sua barba por fazer... É assim que se esconde de ninguém? Do nada? Seu olhar apagado, sem brilho, sem vida, não olha, perpassa... Será que vê? E se vê... Vê o quê? O nada? O tudo?

Você, que carrega sua vida numa sacola encardida... Onde tem tudo e tem nada... Tem restos de vida e tem nada a viver... Tem restos de nada que você sempre será.

Você se excluiu da vida ou foi a vida que se excluiu de você?

De onde vem seu alimento? Será que você come a fome para que ela se vá? Será?

O dinheiro queima em suas mãos, que não mais sabe o que fazer com ele... Não o reconhece como valor de troca... Afinal, todas as portas se fecharam para você...

Pobre ninguém que já foi alguém um dia. Teve nome, sobrenome...Habitou o ventre materno... Foi alimentado pelos seios da mãe. Teve o aconchego de braços que o embalaram e dormiu ouvindo cantigas de ninar, “Nana nenê... Que a cuca vem pegar...”

Ser á que a cuca veio pegá-lo? Será?

Criança que já foi um dia, que brincou de “pelada, mana mula, bola de gude...”, que brigou, bateu e apanhou... Mas viveu... Conviveu... Sobreviveu... Sobreviveu?

Já viu o mundo como todos o veem, que o sentiu bonito, que já acordou com os pingos de chuva batendo na janela de seu quarto, ouviu passarinhos cantando, já viu a beleza do azul do céu, as estrelas no firmamento, sentiu o gosto da água a saciar a sede, já viu crianças brincando, brigando e chorando por tudo e por nada. Já passou pela vida, trilhou talvez os caminhos que escolheu... Por que mudou de rumo?... Ou será mudaram o rumo de você? Que permitiu ou não percebeu que a decisão de sua vida só cabe a você e a ninguém mais. O outro pode querer... Mas daí a poder...Como foi que se desfragmentou... Desobrigou-se de tudo... Como foi que você foi em frente e deixou de olhar para trás, vivendo o nada. Como foi?

Sequer a companhia amiga de um cão a acompanhá-lo... Está alheio a tudo... Vive num mundo só seu. Vive?

Quem é você?

‘Cada um vive atrás das grades que carrega consigo.’ Franz Kafka.
 

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