Você é maçante?

Por: Everton de Paula

Se você julga que é, é porque não é. Se nunca lhe ocorre que você possa ser, há uma triste possibilidade de que seja, pois a principal característica do sujeito maçante é a sua inconsciência desse fato. Ele vive muito satisfeito consigo mesmo, é muito insensível, ou anda muito ocupado em divertir-se a si mesmo para preocupar-se com a impressão que causa nos outros.

Há vários sinônimos para o sujeito maçante: chato, cacete, insuportável, um chute no meio das pernas... Mas o qualificativo mais recente de que tenho notícia é “mala”. Um “sujeito mala” é tão aborrecedor quanto carregar uma mala. E se sua chatice for daquelas de último grau, então é um sujeito do tipo “mala sem alça”. Imaginem, numa rampa de rodoviária ou numa fila interminável de check- in!

A variedade dos sujeitos maçantes é imensa. Um dos piores tipos, para mim, é o narrador de seus próprios progressos, sucesso profissional, a ótima performance dos filhos na escola, a bondade incomensurável da esposa, a saúde de ferro... Outro é o que começa a sua história com a avó, explora todos os ramos da sua árvore genealógica e conclui com descendentes remotos, enquanto os ouvintes ficam sentados em volta, num estado de petrificação delicada e impotente. Mas chato mesmo é o cara que o convida para jantar em sua casa. Só que tem um preço: ver as fotografias e ouvir o relato pormenorizado de sua última viagem à Europa onde conheceu o belzebu dos infernos!

Assusta-me também o maçante anedótico. Basta dar com os olhos nele para a pergunta: “Já sabe da última?” Ou “Você conhece aquela do...”

Todos nós conhecemos o caceteador hipocondríaco, que narra doenças com um realismo impressionante, que extrai sintomas de um poço sem fundo e não conhece felicidade maior do que a de contar, ponto por ponto, a sua última operação, ou as suas dores matinais, ou a cor de sua urina...

Conheci o diretor de uma faculdade que conseguia introduzir nomes famosos em quase todas as suas frases. Acho que, para ele, isto lhe conferia um ar de superioridade intelectual inalcançável. Com o tempo, prestando muita atenção nas coisas que dizia e nos nomes que citava, pus-me a consultar dicionários bibliográficos e de citações. Para minha satisfação íntima, muitos daqueles nomes citados não existiam. O tal diretor os inventava para realçar as suas bravatas intelectuais. É claro, com o tempo caiu no descrédito dos ouvintes e da classe docente universitária. Era, realmente, um chato!

Este caso lembra outro: o do advogado que está sempre citando o número de um artigo da Constituição para se referir a um determinado caso, em questão. Não, ainda não pesquisei, mas tenho minhas dúvidas de que aqueles números de artigos não coincidem, em muitos casos, com o fato. É muito fácil empostar a voz, levantar o dedo e dizer “Segundo o artigo 247 do Código da Defesa do Cidadania, o cidadão comum não deve rastejar-se para solicitar emprego.” Existe este código? Há este artigo, e com estes dizeres? Duvido muito.

Não gostei nem um pouquinho quando um amigo me olhou demoradamente e disse algo parecido a: “Você sabia que no Estatuto dos Idosos há um artigo que diz: todo idoso é um mentecapto presumível.” O que ele quis dizer com isso: seria eu já um idoso e que meus atos poderiam beirar a asneiras e ser perdoado por isto só por ter mais de 60 anos de idade? Não é uma chatice?

Gosto muito de ler biografias. Há uma famosa tirada atribuída a Winston Churchill. Um embaixador lhe disse: “Até hoje não lhe falei sobre os meus netos, Sir Winston.” Churchill deu-lhe um tapinha nas costas e disse: “Já notei, meu caro, e o senhor não sabe como lhe sou grato por isso.”

Nunca se coloque como o centro da roda de amigos. Não diga “Tenho o hábito de fazer isto ou aquilo; tenho cólicas renais frequentes; meu filho me disse uma coisa muito engraçada ontem à noite; quando estive na Europa, na última vez...”

Podemos rir das pessoas cacetes; mas a caceteação não é coisa de que se ria. É uma doença de espírito, grave e contagiosa. Explica seguramente grande parte da infelicidade interior, profissional, conjugal.

Felicidade conjugal. Há outro tipo de indivíduo maçante, ou marido cacete. Preste atenção na sutileza desta anedota: a esposa chega ao marido e lhe pergunta “Querido, o que você prefere uma mulher bonita ou uma mulher inteligente?” O marido responde sem pestanejar: “Nem uma, nem outra. Você sabe que eu só gosto de você.”

Em resumo, ser interessado no que o outro diz é ser interessante; ter animação é dar animação aos outros e fazê-los sentir gratidão por você. Ter a delicadeza de fazer o outro sentir-se bem ao seu lado, sentir-se valorizado, é, talvez, o mais forte instrumento de simpatia.

Esqueça um pouco de si próprio nas próximas conversas. Quando perguntarem alguma coisa sobre você, responda o essencial, sem enaltecimentos. O que fazemos, o que somos, o que nos tornamos decide não só a qualidade de nossa própria vida, mas também a daqueles que nos cercam... E nos ouvem! É isto: você quer ser ouvido com atenção e simpatia? Então não fale mal de ninguém e nem fale bem de si próprio.

Como tal, talvez você não seja nem caceteado nem cacete!

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