‘Eu também queria tornar o mundo melhor’

Por: Maria Luiza Salomão

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“Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Assim inicia Kafka o livro A Metamorfose, 1912, e inova forma e conteúdo. A narração absurda e inverossímil nos prende na rede imaginativa do autor, que revela a inadequação do protagonista ao seu meio, sentido como hostil, o desprezo a si mesmo, e sua exclusão do meio familiar e social.

Mais estranho que a Ficção, 2006, inova na forma e no conteúdo. Harold, o protagonista, vê o mundo através de abstrações matemáticas e sofre uma metamorfose em sentido contrário à obra de Kafka. Um dia, acorda ouvindo uma voz feminina narrando suas ações e pensamentos (melhor do que ele mesmo). “Mal sabia ele...” que era personagem de uma ficção narrada pela escritora Karen Eiffel (Emma Thompson) que assassina os heróis em seus romances. Até então Harold vivia no “automático”.

A voz (somente ele a escuta), depois de narrar várias ações suas, anuncia a sua morte. O filme é uma luta contra o tempo - Harold precisa encontrar a autora e convencê-la a não matá-lo. Busca ajuda com uma psiquiatra que o rotula de esquizofrênico. Ao assumir a propriedade daquela voz, como narrando melhor do que ele as suas ações, Harold mostra-se disposto a buscar uma verdade. Ao ouvir sobre a sua morte, de um jeito surreal, se deu conta de que estava como morto-vivo.

Sonhos têm uma forma “absurda” e inverossímil de revelar situações verdadeiras vividas pelo sonhador. Mitos não são falsos - como os sonhos constroem imagens aparentemente irreais. Mitos e sonhos metaforizam verdades, a expandir o universo mental humano. Mas como compreender a linguagem mítica e sonhante? A Psicanálise, como método, faculta ao paciente recriar histórias, desmascarar as “personas”, favorecer metamorfoses e encarnações de palavras mágicas - é ampliação do “sentir (-se) mais vivo”. A linguagem, permeada de sonhos e mitos, visa alcançar verdades desconhecidas.

A sugestão da psiquiatra é que Harold procure alguém que entenda de Literatura. Quem, afinal, saberia contar melhor sobre ele mesmo? Hilbert, professor de literatura (Dustin Hoffman), se vê seduzido a iniciar a investigação sobre a origem da voz, quando é procurado por Harold. Capta a obsessividade de Harold, que tanto o empobrece, e tenta ajudá-lo a descobrir se é personagem de uma trama tipo Tragédia ou Comédia. Na Tragédia, o personagem morre e na Comédia ele se casa.

A autora Eiffel é a narradora onisciente, e, como Deus, cria o Adão-Harold do barro de sua imaginação. O protagonista é narrado como solitário, e seus pensamentos (pensamentos?!?) são como mecanismos e engrenagens de um relógio. O relógio de pulso de Harold é um coadjuvante, companheiro (inanimado e animado) na sua vida literária e real. O relógio (símbolo do Tempo) exprime uma relação paradoxal: é representação do um determinismo (no mundo matemático de Harold)e é elemento do Acaso, ao recriar sentido em sua vida (salvando-a).

Harold é um zumbi, para si e para os outros, até ser narrado. Ou até aceitar seu Destino, por não poder controlá-lo. Torna-se humano ao ouvir a Voz, aprende a conviver com o amigo, com uma mulher, com a Voz. A autora se comove quando conhece o protagonista que criou e a quem deve matar. Ela descobre que a ficção pode ajudar a salvar vidas (ela que sempre matou os personagens). Em diálogo significativo, Karen e Hilbert conversam sobre uma nova versão literária para o final do romance. Aqui a Arte se confronta com a Vida. A obra-prima da escritora deve versar sobre a “inevitabilidade da Morte” ou se centraria na “continuidade da vida”?(citações de Calvino). Como narradora onisciente a autora pode reformular o romance. Tem o poder de vida e morte, ela muda de Deus do Antigo para o do Novo Testamento ela se torna Deus redentor, não mais punitivo. Recria o romance e se metamorfoseia também, como Harold.

Diz Clarice Lispector “só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam”. O herói morre várias vezes em uma só vida, mas as suas histórias podem ser eternas. Tornam-se eternas se narradas, com sentido (consentido), e se o narrado for encarnado (Verbo-carne-Verbo).


DIRETOR

Marc Foster

A diferença entre a verdade e a ficção é que a ficção faz mais sentido”.
Mark Twain.

Suíço-alemão, o diretor morou em Davos, Suíça, até os 20 anos, quando mudou para Nova York. Tem no currículo Em busca da terra do Nunca, 2004, com 7 indicações ao Oscar, baseado na vida do escritor J. M. Barrie, que criou o Peter Pan. Mais estranho que a ficção, classificado como comédia romântica, ficção científica, drama, enfim, um filme difícil (como tantos, nos dias de hoje) de classificar o gênero. Aos 39 anos rodou o 22. filme da série James Bond, Quantum of Solace, 2008, exibindo um novo caráter para o personagem ultrafamoso.

Marc Forster fala, em uma entrevista, “da profunda necessidade humana de ilusão, mesmo frente às maiores tragédias”. Adora contar histórias e diz que se tivesse que se tornar um escritor de romances, ele se tornaria. O entrevistador comenta com Forster, na ocasião, que um famoso crítico de cinema disse que se Dostoievski fosse vivo hoje faria cinema. Talvez todos os grandes romancistas, de outras épocas, fariam filmes, se vivessem nossos dias.

Voltando ao filme Mais Estranho que a Ficção, pode-se pensar se narrar a verdade do que se vive emocionalmente, na nossa realidade psíquica, não nos parece, muitas vezes, mais estranho do que uma ficção escrita por qualquer grande escritor. Jorge Luis Borges termina um conto seu, do livro Ficções, fazendo referência a um dito oriental: “eu sou um homem sonhando ser uma borboleta, ou uma borboleta que sonha ser homem?”


Serviço
Título: Mais Estranho que a Ficção
Direção:Marc Forster
Gênero: Comédia , Fantasia, Romance
Nacionalidade: EUA
Atores: Will Ferrell, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal
Onde: Será exibido e discutido hoje no Cinema e Psicanálise, a partir das 15 horas, no Centro Médico (sede campestre)

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