A menina e o presente

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Quando faltavam três meses para completar dez anos, a menina ganhou um presente antecipado, com a condição de abri-lo só no dia do aniversário. Seu coração batia ansiosamente pelo inusitado da situação. Era tão raro ganhar presentes, que este tempo que faltava não iria atrapalhar nada.

O embrulho pequeno, retangular, consistente, envolto em um papel de seda verde foi guardado numa terceira gaveta, na porta do meio de um guardaroupa de imbuia, o preferido da casa, guardador de objetos e muitas histórias que mexem com as emoções. Acostumada a obedecer, a menina respeitou o trato, apenas vez ou outra ia olhar o presente. Abria a gaveta com cuidado, pegava-o, virava-o, olhava, tentava adivinhar, mas era impossível. O que poderia conter uma caixa de doze por vinte centímetros, comprada em São Paulo, especialmente para ela? E, assim, ela vivenciou este tempo, com expectativa, à espera de algo que seria, certamente, prazeroso. Chegada a hora, seus olhos se iluminaram quando viram uma caixa com dez potinhos de tinta guache, de várias cores, um pequeno pincel, prontos para usar. Pegou seu caderno de desenho e foi experimentando os efeitos das cores no papel branco. Com gotas de água diluía a tinta com cuidado, em um recipiente, depois, misturava-as e conseguia tons surpreendentes. Era uma novidade.
A espera compensou. Desenhou e pintou casinhas, árvores, cachos de uva, patinhos na lagoa, cajus, bolas e tudo o que queria. Não se cansou do brinquedo, como é costume acontecer com as crianças. Gostou do colorido nos desenhos e resolveu levá-lo para sua vida. Já era uma menina alegre, ficou muito mais. Em tudo que fazia colocava uma pitada de cor, uma pincelada de guache. Para ela, as pessoas, as situações, os objetos podiam ser sem graça, pois os coloria a seu modo. Dando-lhes cor, tornava-os mais humanos. Sabia que, com seu pincel, transformaria uma vida preto e branco em colorida, com muitos matizes diferentes.

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