Absoluta convicção

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Levanta-se com o mesmo mal-humor com que entrara em casa, no sábado à tarde e com o qual convivera todo o domingo. Reclama que o café está sem açúcar, que não há carne na marmita.

- A culpa é do seu filho. Chegou com fome, esquentou comida, comeu a coxa de frango que eu tinha guardado pra você comer hoje.

Vai ao quintal, destranca o cadeado da porta, entra no quartinho escuro, arrasta a bicicleta para fora. Na porta da cozinha, amarra a marmita na garupeira. Empurra o veículo pelo corredor espremido entre a parede e o muro até o portão da rua. Faz o em-nome-do-pai, fala em voz muito baixa.

- Vamos lá, com Deus adiante.

Monta na bicicleta e pedala por ruas escuras do Parque Vicente Leporace, depois enfrenta cinco quilômetros de perigos na rodovia, ainda vazia das motos e dos carros de colegas.

- Se tivesse comprado a moto, poderia dormir um pouco mais, sair meia hora mais tarde...

Está chegando ao viaduto do bairro São Joaquim, e a raiva volta. Descarrega-a inteira no pedal e nas lembranças.

No sábado, havia saído esperançoso de casa, dizendo à mulher que faria surpresa para a família. Vestiu camiseta nova, encostou o tênis, calçou sapato, pegou o ônibus, foi para o centro da cidade. Entrou em muitas lojas especializadas, os vendedores foram unânimes.

- Não tem jeito. Infelizmente o senhor está negativado, precisa ir lá no Serviço de Proteção ao Crédito e acertar a situação, limpar sua ficha.

Pedala mais forte e amaldiçoa aquele dia em que assinara como fiador do seu irmão Zeca. O danado comprou um carro usado, mudou para o norte de Minas, deixou as prestações sem pagar.

- Agora quem não pode comprar uma motocicleta sou eu. Vai ver que o excomungado do Zeca está vivendo no bem-bom, e eu tenho de madrugar, de ficar pedalando feito doido.

Percebe que está falando sozinho, fecha a boca, empurra o ódio para as pernas, para os pedais.

Chega à fábrica, tranca a bicicleta no estacionamento, entra no barracão e é engolido pelo barulho de sirene, de máquinas, de vozes de comando. Em momentos se incorpora à esteira, vira peça de máquina, parafuso de engrenagem que não para, nunca para e permanece, como sua vida, sempre no mesmo lugar.

Às vezes pensa bobagem.

- Sou uma esteira também.

Após horas iguais, há pausa comprida, preenchida pelo conteúdo da marmita: arroz, feijão, alface, uma rodela de tomate.

Regressa ao mundo automático e barulhento, é também surpreendido pelo grito da sirene, pelo comunicado repetido muitas vezes no alto-falante: o gerente do pesponto morreu, a fábrica alugou ônibus, vai ficar parada por duas, horas, todo mundo deve ir ao velório. Ficariam lá meia-hora, depois voltariam.

Acompanhou os demais, fez viagem, desceu, mas não entrou no velório. Não gostava de ver gente morta. Depois, impressionado, dormia mal, tinha pesadelos.

Os companheiros entravam, saíam, formavam rodinhas, cada um explicando que o chefe batera de frente num caminhão, não sobrara nada da moto de duzentas e cinquenta cilindradas, ele morrera na hora.

À medida que escuta os informes manchados de sangue e de contradições, um meio sorriso aflora nos seus lábios, fica falante, logo vira centro da roda.

- A mulher vive falando na minha cabeça. Quer porque quer que eu venda a bicicleta, compre uma mota ou um carro velho. Nem escuto. Não troco a segurança da minha magrela por moto nenhuma, por nenhum carro velho...

Suas palavras e suas feições exprimem convicção.

Ele está deveras convicto.

E nem lembra, agora, o que seja mal-humor.

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